Foz do Arelho é uma vila portuguesa, localizada 8 km a oeste de Caldas da Rainha e a 100 km de Lisboa. É um lugar pequeno, com menos de 2.000 habitantes, mas, por possuir tanto uma praia oceânica quanto uma praia de lagoa, tornou-se um destino muito procurado por turistas de fim de semana. E como vim parar aqui? Uma amiga generosa tem uma casa em Foz do Arelho e me deixou ocupá-la por algum tempo.
"Foz" significa o local onde um rio deságua no mar ou, neste caso, onde a lagoa encontra o oceano. "Arelho" é uma palavra antiga que significa "lugar cheio de areia" (do latim areniculum). Foz do Arelho recebeu esse nome por estar situada numa área arenosa às margens da Lagoa de Óbidos, a maior lagoa de Portugal (com cerca de sete quilômetros quadrados).

O protagonista deste mês foi meu pé esquerdo. Meu tornozelo ainda não se recuperou completamente desde que o torci em Vicenza, e tenho caminhado muito devagar, mancando, e sentindo um pouco de dor. Comprei uma bengala para ajudar no apoio e na estabilidade, e a batizei de Greg, em homenagem ao doutor Gregory House. Felizmente, não há muito que fazer em Foz do Arelho, e passei a maior parte do tempo simplesmente descansando e poupando o pé, assistindo a filmes e aos jogos da Copa do Mundo da FIFA no computador, além de ler Pushkin e Dostoievski. Algumas vezes, senti-me mais aventureiro e fui caminhar bem lentamente pela praia, refletindo sobre como o veloz Aquiles é incapaz de ultrapassar uma tartaruga vagarosa (é um dos paradoxos de Zenão; se você ainda não conhece, basta dar uma olhada na Wikipedia).


E a comida?
Foi bom voltar à gastronomia portuguesa e reencontrar alguns dos meus pratos favoritos. Comi bacalhau com natas, arroz de pato, arroz do mar, arroz de tamboril, carne de porco à alentejana, lombo assado com castanhas, cabidela de frango, entre muitas outras excelentes refeições.




A mousse de chocolate portuguesa merece um parágrafo à parte, porque é diferente das mousses encontradas em outros lugares. Em vez da espuma leve e aerada do estilo francês, copiada pelo mundo inteiro, ela tem uma textura densa e aveludada, com consistência quase de fudge. Às vezes também recebe um fio de azeite de oliva e uma pitada de sal. É fantástica.

Outra sobremesa portuguesa interessante é o salame de chocolate. A receita mistura chocolate derretido, manteiga, açúcar, cacau em pó, biscoitos tipo Maria triturados, amêndoas, e um toque de vinho do Porto. Depois, tudo é moldado em formato de salame e levado à geladeira até firmar.
E, sim, mantive sempre uma garrafa de vinho do Porto tawny na cabeceira para as libações noturnas.
E os passeios?
Caldas da Rainha foi fundada no século 15 pela rainha Dona Leonor, que criou um hospital termal em torno das águas de propriedades terapêuticas (daí o nome da cidade). Fica a apenas quinze minutos de ônibus de Foz do Arelho e é um lugar muito maior, com mais de 50.000 habitantes.

A cidade é famosa por sua cerâmica (a louça das Caldas), e foi ali que Rafael Bordallo Pinheiro instalou sua fábrica de faiança no século 19. Ainda é possível comprar seus pratos, tigelas, e jarros na loja da antiga fábrica, embora seu museu fique em Lisboa (que visitei em 2022). O artista local que tem um museu em Caldas da Rainha é José Malhoa, o mais famoso pintor português do século 19. O museu não possui sua obra mais conhecida, O Fado (que está no Museu do Fado, em Lisboa, que também visitei em 2022), mas exibe a igualmente divertida Os Bêbados, além de centenas de outras pinturas de Malhoa e de seus contemporâneos.


Caldas da Rainha também possui alguns edifícios e monumentos históricos interessantes, como a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, construída originalmente em 1500, e o Chafariz das Cinco Bicas, uma fonte barroca erguida em 1748.

Óbidos é uma vila (cerca de 3.100 habitantes), situada 15 km ao sul de Foz do Arelho. É uma das cidades medievais mais encantadoras de Portugal, cercada por muralhas de pedra extraordinariamente bem preservadas, sobre as quais ainda é possível caminhar para apreciar a paisagem ao redor. Dentro das fortificações, um labirinto de ruas estreitas e calçadas de pedra serpenteia entre casas caiadas de branco, adornadas por flores, criando uma atmosfera que parece não ter mudado há séculos (exceto pelas multidões de turistas). O imponente castelo, hoje transformado em hotel histórico, domina a paisagem e lembra a importância estratégica de Óbidos durante a Idade Média. Do lado de fora das muralhas encontra-se um impressionante aqueduto do século 16, construído para abastecer a cidade com água potável. Óbidos também abriga diversas igrejas históricas, entre elas a antiga Igreja de São Tiago, hoje transformada numa curiosa livraria. Graças às suas muitas livrarias, Óbidos foi reconhecida pela UNESCO como uma das Cidades da Literatura, ao lado de Barcelona, Dublin, Montevideo, e outras. O nome Óbidos deriva do latim oppidum, que significa "cidadela".





Almocei muito bem por lá. Escolhi o típico e delicioso arroz de tomate com pastéis de bacalhau. E nenhuma visita fica completa sem provar um copo de ginginha, o famoso licor de ginja da região, muitas vezes servido num copinho de chocolate.

E depois de Foz do Arelho?
Em dois dias me mudo para Marrocos, mais especificamente Marrakesh, também conhecida como A Cidade Vermelha (por causa dos tons terrosos da sua arquitetura tradicional) e A Filha do Deserto (porque surgiu originalmente como um oásis fortificado para os nômades que cruzavam o Saara). Mas essa é uma história para outra hora.
Netshawfo qrib! (Isso significa "até breve" em darija, o dialeto árabe falado no Marrocos, que mistura o árabe clássico com línguas berberes e ainda incorpora um pouco de francês e espanhol.)

