Adoro caminhar por Venezia sem destino definido, apenas explorando as vielas, pontes, e canais pitorescos. Até levar o lixo para fora de manhã cedo pode oferecer vistas fotogênicas.
E a comida?
Os restaurantes em Venezia são bons, mas bem caros. Tentei equilibrar meu orçamento preparando minhas próprias refeições em casa com frequência. Felizmente, existem ingredientes apetitosos na Itália. Até um sanduíche simples feito com focaccia (um pão achatado, assado no forno, e temperado com azeite de oliva e ervas), mascarpone (um creme de leite espesso), e prosciutto (presunto cru, não defumado, curado a seco) é uma delícia.
O que os venezianos parecem comer mais são os cicchetti (pronuncia-se tchi-que-ti), pequenos aperitivos servidos sobre pão. Pode ser presunto, camarão, pimentões, qualquer coisa mesmo. Um muito popular, considerado essencialmente veneziano, é o baccalà mantecato (bacalhau cozido em leite, alho, azeite de oliva, sal e pimenta). Muito bom com um prosecco, outra especialidade da região do Veneto. Caso você não saiba, é um vinho branco espumante feito com a uva prosecco. Na minha modesta opinião, é melhor que champagne.
Cicchetti e um bellini
Outra bebida italiana que mantive em casa para libações noturnas foi o delicioso limoncello, um licor feito com raspas de limão-siciliano. O que comprei foi o Limoncello Artigianale Villa Santa Maria, de Abruzzo.
Comi alguns dos pratos italianos tradicionais, claro, incluindo gnocchi quattro formaggi, lasagna bolognese, spaghetti carbonara, pappardelle al ragù di filetto e pomodorini, cannelloni con ricotta e spinaci, e assim por diante. Talvez o mais popular em Venezia seja o risotto alla pescatora, que é um risoto de frutos do mar, com camarões, lula, mexilhões, vôngoles, e bacalhau. Comi um, acompanhado por um copo de Valpolicella Classico Superiore, que estava muito bom.
Quando estive em Budva (Montenegro) há dois anos, comi škampi na buzara (buzara é um molho feito com alho, tomates, pimentões, cebolas, e vinho), que me disseram ser um prato local. Agora que estou em Venezia, comi spaghetti alla buzara, que também me disseram ser um prato local. Aparentemente, quando Venezia governava grande parte do Adriático oriental (incluindo Montenegro), absorveu o prato na culinária veneziana, acrescentando a massa. O que comi em Budva era feito com camarão-rosa do Adriático. O veneziano era feito com scampi do Adriático (lagostim). Ambos deliciosos.
Fui, mais uma vez, ao Harry's Bar. A última vez havia sido mais de três décadas atrás, mas tudo ainda parece igual. Caso você não saiba, era o bar frequentado pelo Ernst Hemingway, e também pelo coronel Richard Cantwell, protagonista de seu livro Across the River and into the Trees. O bar está naquela esquina desde 1931 (se você não souber que ele está ali, pode passar direto), e seu proprietário original, Giuseppe Cipriani, foi o orgulhoso inventor do bellini (um coquetel feito com prosecco e purê de pêssego) e do carpaccio (carne bovina cortada em fatias finíssimas, servida crua). Essa dupla foi exatamente o que pedi no almoço, enquanto me perguntava qual cliente habitual talvez tivesse um dia se sentado à mesma mesa onde eu estava: Arturo Toscanini, Alfred Hitchcock, Orson Welles, Woody Allen, talvez o próprio Hemingway?
"A Contessa não está em casa, meu coronel", disse ele. "Eles acreditam que talvez o senhor a encontre no Harry's."
"Você encontra qualquer coisa no Harry's."
"Sim, meu coronel. Exceto, possivelmente, a felicidade."
"Vou encontrar a felicidade também, diabos", garantiu o coronel. "A felicidade, como você sabe, é uma festa móvel."
E os passeios?
Padova
Um dia, fui a Padova, vinte e cinco minutos de trem a oeste de Venezia. Não é um lugar pequeno (cerca de 200.000 pessoas), mas tem o ar de uma cidadezinha agradável.
Primeiro, vou dizer o que não vi lá. Não vi o cavalo do Donatello, a famosa Estátua Equestre de Gattamelata, de 1453. Ele foi removido do pedestal no ano passado para restauração, e ainda não voltou. Também não vi os afrescos do Giotto, de 1305. Eles ficam dentro de uma pequena capela, a Cappella degli Scrovegni, e é preciso reservar os ingressos com muita antecedência. Mas vi muitas outras coisas.
Giardini dell'Arena
Ao caminhar pelo centro de Padova, a primeira coisa que você nota são os arcos. Muitas ruas são ladeadas por pórticos de diferentes épocas e estilos, oferecendo passagens sombreadas e arqueadas para os pedestres.
Via Galileo Galilei
O Prato della Valle é uma praça elíptica de 90.000 metros quadrados, cercada por um canal e por muitas estátuas de celebridades italianas do passado (disseram-me que há 78 delas). Vi Petrarca (poeta), Galileo Galilei (cientista), Ludovico Ariosto (poeta), Canova (escultor), Tartini (compositor), alguns papas, e um monte de nomes que eu nunca tinha ouvido antes. Depois me sentei num dos cafés ao redor da praça e pedi um brioche e um cappuccino. Observação: os italianos nunca tomam cappuccino depois do almoço, porque é considerado uma bebida matinal.
Prato della Valle
A Basilica Pontificia di Sant'Antonio di Padova está ali desde 1310. O exterior parece românico, e o interior parece gótico. O cavalo do Donatello deveria estar bem ao lado da igreja, mas, como eu disse, não estava.
Basilica Pontificia di Sant'Antonio di Padova
Caminhei sem rumo e encontrei alguns edifícios muito interessantes: o Palazzo del Bo (sede da University of Padua desde 1493), o Palazzo della Ragione (uma combinação de mercado coberto e prefeitura, de 1219), e a Torre dell'Orologio (uma torre com um relógio astronômico construído em 1344, que mostra as horas, os meses, as fases da lua, e a passagem do sol pelo zodíaco). Também vi a casa onde Dante Alighieri buscou refúgio depois de ser exilado de Firenze em 1302.
Torre dell'OrologioCasa do exílio do Dante
Obviamente, também visitei alguns museus: o Eremitani Museum, que tem uma coleção arqueológica e uma coleção de pinturas, e o Palazzo Zuckermann, que abriga um museu de artes decorativas no primeiro andar e o eclético Museo Bottacin no segundo. Uma peça em particular tinha uma história divertida. O doge Paolo Renier prometeu um cargo importante na Basilica di San Marco a um nobre chamado Angelo Querini. O homem ficou tão feliz que encomendou um busto de terracota do doge ao jovem artista Antonio Canova (na época com 22 anos). Mas então o doge voltou atrás. Enfurecido, Querini colocou o busto na latrina dos criados. Um século depois, seus herdeiros encontraram a estátua em pedaços e a venderam a um antiquário, que a restaurou. Canova, é claro, se tornaria um escultor famoso, e hoje o busto vale milhões de dólares.
Doge Paolo Renier, por Antonio Canova
Como eu ainda estava repleto por causa do café da manhã tardio, em vez de almoçar fiz apenas um lanche. Na Itália, você pode comer almôndegas na massa, numa sopa, ou como hors d'oeuvres. Foi o que pedi, uma polpetta di carne acompanhada por uma taça de Trentino Pinot Nero. Foi um passeio agradável.
Polpetta
Vicenza
Andrea Palladio (1508-1580) foi um dos arquitetos mais importantes da história. Os projetos que ele criou durante o Renascimento, inspirados pela arquitetura romana clássica, foram referência por muito tempo. Considere, por exemplo, Monticello, a propriedade de Thomas Jefferson perto de Charlottesville, nos USA, ou Chiswick House, no oeste de London, UK. Palladio nasceu em Padova, mas foi em Vicenza (graças a bons patrocinadores) que prosperou. Então fui até lá (quarenta e cinco minutos de trem a oeste de Venezia) para ver algumas de suas obras, edifícios que eu só conhecia por desenhos e fotos.
Vicenza pela manhã
Vicenza é uma cidadezinha agradável (cerca de 100.000 pessoas). Comecei meu passeio pela última obra do Palladio, na verdade concluída apenas depois da sua morte, o Teatro Olimpico. Ele tem um palco belíssimo, completado por um cenário em trompe-l'oeil, criado por Vincenzo Scamozzi, que dá a impressão de ruas recuando até o horizonte. É o cenário teatral mais antigo ainda em uso.
Teatro Olimpico
O Palladio Museum foi um pouco decepcionante. Tem apenas alguns modelos de suas obras, e só. Felizmente, a cidade tem muitos edifícios reais projetados por ele.
Na Piazza dei Signori, você encontra a grande Basilica Palladiana e a menor Loggia del Capitanato. A Basilica, também conhecida como Palazzo della Ragione, era originalmente um edifício gótico do século 15, mas desabou. A cidade contratou o Palladio para reconstruí-lo, e ele o fez no estilo das antigas basílicas romanas. Essa construção levou muito tempo, de 1549 a 1614. Palladio já estava morto há trinta anos quando terminaram. A Loggia foi construída bem em frente à Basilica, e o Palladio decidiu criar um contraste com as linhas claras do outro edifício usando uma decoração muito mais elaborada (especialmente nas colunas, que misturam o jônico e o coríntio). Com o tempo, o contraste também aumentou pela cor, à medida que o estuque branco que cobria as colunas descascou e revelou os tijolos vermelhos por baixo. Na mesma Piazza dei Signori, fica também a Torre Bissara, do século 12, com 82 metros de altura.
Basilica Palladiana (e a Torre Bissara)Loggia del Capitanato
O Parco Querini tem um monóptero de 1820 criado por Antonio Piovene, inspirado em Palladio. Um monóptero é uma colunata circular que sustenta um telhado (geralmente em forma de cúpula), mas sem paredes. Você pode chamar de gazebo, se quiser. Esse foi colocado numa ilha artificial no parque, no centro de um lago cheio de tartarugas. E também vi uma nútria ali, nadando entre as tartarugas (parece uma pequena capivara aquática, mas não acho que sejam parentes).
Parco Querini
A Chiesa di Santa Corona tem uma cripta subterrânea um tanto escondida, que inclui a Cappella Valmarana, projetada pelo Palladio. A igreja também tem grandes pinturas de Bellini (The Baptism of Christ) e Veronese (The Adoration of the Magi), entre várias outras.
Mas a verdadeira caverna do tesouro para amantes da arte é a Gallerie d'Italia, localizada no barroco Palazzo Leoni Montanari. A coleção começa com centenas de ícones religiosos russos e depois avança pela arte veneziana (isto é, de toda a região do Veneto, não apenas de Venezia) de várias épocas. Gostei particularmente do conjunto de pinturas de vedutismo, que incluía não só o grande Canaletto e seu seguidor Francesco Guardi, mas também muitos outros nomes dos quais raramente se ouve falar. Vedutismo (do italiano "veduta", que significa "vista") é um gênero artístico dedicado a pinturas extremamente detalhadas de paisagens urbanas, viabilizadas pelo uso de dispositivos ópticos como a camera obscura, que permitia ao artista traçar arquiteturas intrincadas e pintá-las de forma muito realista na tela. Canaletto foi o mestre desse estilo.
Veduta del Canal Grande (1740), de Michele Marieschi
O Museo Civico di Palazzo Chiericati também tem alguns tesouros, incluindo obras de Bassano, Tintoretto, Veronese, Giordano, Tiepolo, e muitos outros.
Para meu almoço em Vicenza, fiz uma pequena pesquisa e encontrei um restaurante onde os moradores locais comem, Righetti. Pedi um prato tradicional da cidade, baccalà alla vicentina. É bacalhau seco cozido lentamente no leite, o que gera um molho cremoso, servido com polenta macia. Não é bonito, mas é saboroso.
Baccalà alla vicentina
A última obra do Palladio que vi foi o Arco delle Scalette ("arco das escadinhas"), construído em 1596. Felizmente, não precisei subir aquelas escadas. Porém, enquanto caminhava por aquela área, pisei no que parecia uma superfície plana, mas era na verdade metade calçada e metade rua, com uma diferença de cerca de 10 cm de altura entre as duas. Meu tornozelo torceu de um jeito que tornozelos não deveriam torcer. Não o suficiente para romper um ligamento, mas o bastante para causar uma dor incômoda que me deixou mancando por alguns dias.
Arco delle Scalette
E depois de Venezia?
Em alguns dias, me mudo para Foz do Arelho, em Portugal. Onde fica isso? Conto na próxima. Até breve!