Venezia é única. Não é simplesmente uma cidade com canais, mas um sistema urbano completamente construído sobre a água. Em vez de se expandir sobre terra firme, ela cresceu sobre uma lagoa, apoiada numa densa rede de estacas de madeira cravadas no lodo, sustentando estruturas de pedra e tijolo que se comportam como um tecido arquitetônico contínuo. As ruas são muitas vezes substituídas por canais, e a hierarquia habitual das vias dá lugar a um sistema de circulação fluido, onde barcos funcionam como transporte público e privado. Os edifícios erguem-se diretamente da água, com mínima separação entre infraestrutura e arquitetura, criando uma interação contínua entre engenharia e estética. O resultado é uma cidade em que planejamento urbano, necessidade estrutural, e identidade visual são inseparáveis, produzindo uma paisagem sem paralelo verdadeiro em qualquer outro lugar.
Aluguei um apartamento no sestiere de San Polo, numa área chamada Campo San Boldo. Havia aqui uma igreja do século 11, dedicada a Santa Ágata. Ela foi reconstruída várias vezes e, a partir do século 15, passou a ser associada a Santo Ubaldo, o que acabou dando o seu nome atual ("San Boldo" é uma deformação veneziana de "Sant'Ubaldo"). Mais tarde, a igreja foi demolida e substituída por um edifício residencial, mas o campanário ainda está lá. Você pode reconhecer a área se viu o filme A Haunting in Venice. Embora o cenário tenha sido construído em estúdio, o exterior do palácio foi baseado no Campo San Boldo, e algumas cenas com Poirot e os outros convidados foram filmadas a poucos passos da minha porta.
A casa de A Haunting in Venice
Durante a maior parte do mês, eu simplesmente vaguei pela cidade, me deixando perder no labirinto de vielas e canais, fingindo que poderia absorver um lampejo de genialidade dos filhos ilustres de Venezia, como Vivaldi, Canaletto, ou Casanova, ou mesmo dos estrangeiros famosos que viveram aqui, como Byron, Wagner, ou Hemingway.
Mas também visitei museus e lugares históricos, claro, para ver arte e arquitetura muito interessantes.
Perto do meu apartamento fica o Museo di Palazzo Mocenigo, que é menos lotado de turistas do que outros locais mais famosos. Como o nome indica, era uma das residências dos Mocenigo, uma família que teve sete de seus membros como doges (o doge era a autoridade máxima da República de Veneza). Hoje, é um museu dedicado a têxteis, vestuário, e perfume.
Palazzo Mocenigo
O famoso Palazzo Ducale, na Piazza San Marco, possui uma impressionante galeria de pinturas, incluindo mestres como Tiziano, Tiepolo, Bellini (sim, também o nome de um coquetel), Carpaccio (sim, também o nome de um prato), entre outros. Há uma pintura curiosa atribuída a um seguidor de Hieronymus Bosch, Apocalyptic Vision, que se parece muito com uma obra do próprio Bosch. Mas o palácio em si é ainda mais interessante do que a arte que ele abriga. Foi construído entre 1483 e 1565 e apresenta uma mistura de elementos góticos, renascentistas, e maneiristas. O pátio, os aposentos do doge, o arsenal, as prisões (para chegar lá, você atravessa a célebre Ponte dos Suspiros), tudo muito fascinante.
Pátio do Palazzo Ducale
Do outro lado da Piazza San Marco, está o Museo Correr, que também abriga o Museo Archeologico Nazionale e a Biblioteca Marciana. Muitos objetos históricos, estátuas, e pinturas (incluindo várias de Bellini e Carpaccio, e até uma de Pieter Brueghel). Gostei particularmente da coleção de estátuas romanas, tanto de imperadores quanto de figuras mitológicas.
Piazza San Marco
Ainda na Piazza San Marco, havia uma exposição interessante na Istituzione Fondazione Bevilacqua la Masa, Picasso, Morandi, Parmiggiani: Naturezas Mortas. Parmiggiani parecia bastante deslocado ali, até mesmo inferiorizado, mas ver Picasso e Morandi juntos foi intrigante: um desconstrói os objetos, o outro os reduz a uma essência silenciosa.
Caveira de bode, garrafa, e vela (1952), do Pablo PicassoNatureza morta (1963), do Giorgio Morandi
Na Scuola Grande di San Rocco, vi algumas pinturas monumentais do Tintoretto. Construída entre 1515 e 1560, ao lado da Chiesa di San Rocco (Igreja de São Roque), era uma espécie de clube para venezianos ricos. Eles contrataram o Tintoretto para decorar o local, e a maior parte da arte nos dois grandes salões (um em cada andar) foi feita por ele e sua equipe. É realmente impressionante, quase no mesmo nível da Cappella Sistina no Vaticano. Há também algumas obras de Giorgione, Tiziano, e Tiepolo.
Scuola Grande di San RoccoScuola Grande di San Rocco e Chiesa di San Rocco
Outra instituição semelhante (mas bem menor) que visitei foi a Scuola Grande di San Giovanni Evangelista. Ela possui afrescos do Tiepolo, uma pintura do Tintoretto, e algumas de Carpaccio e Bellini, todas com o tema da crucificação (pois alegavam possuir um pedaço da cruz de madeira na qual Jesus foi crucificado).
O Museo Fortuny está instalado no Palazzo Pesaro Orfei, onde Mariano Fortuny y Madrazo (1871-1949) viveu e trabalhou. Ele era espanhol, mas sua família mudou-se para Paris e depois para Venezia. O homem fazia de tudo: pintura, escultura, gravura, fotografia, têxteis, moda, cenografia e iluminação teatral, e ainda patenteou várias invenções. Impressionante.
Palazzo Pesaro Orfei
As Gallerie dell'Accademia são um museu repleto de pinturas renascentistas monumentais. Tintoretto, Veronese, Tiziano, Carpaccio, Bellini, os famosos habituais. Tem também três obras do Hieronymus Bosch: o tríptico The Hermit Saints, o tríptico The Crucifixion of Saint Wilgefortis, e o políptico Visions of the Hereafter (que inclui Fall of the Damned, Hell, Terrestrial Paradise, Ascent of the Blessed).
Visions of the Hereafter (c. 1515), do Hieronymus Bosch
Perto dali, a Collezione Peggy Guggenheim possui uma seleção extraordinária de arte do século 20: Picasso, Magritte, Dalí, Ernst, Miró, de Chirico, Pollock, Klee, Malevich, Lissitzky, Calder, Moore, Noguchi, Giacometti, e muitos outros. O edifício também é encantador, o Palazzo Venier dei Leoni, do século 18, com um jardim de esculturas e vista para o Grand Canal.
Peggy Guggenheim Collection
Um dia, fiz uma pequena caminhada temática sobre o Tintoretto. Primeiro, visitei sua casa e estúdio (é possível ver apenas a fachada, não é um museu), no sestiere de Cannaregio, uma área mais tranquila ao norte do fluxo turístico habitual. Depois, fui à Chiesa della Madonna dell'Orto, que era a igreja paroquial de Tintoretto e, na prática, seu santuário artístico. Várias de suas principais pinturas ainda estão lá, e ele está enterrado dentro da igreja. Seu nome verdadeiro, aliás, era Jacopo Robusti. Ele recebeu o apelido Tintoretto porque seu pai era tintureiro (tintore, em italiano), então ele era o "filho do tintureiro" (tintoretto).
Casa do Tintoretto
Outro veneziano morto que visitei foi Marco Polo (ele não estava em casa). Acho muito improvável que um europeu vá à China e depois deixe de mencionar que eles escrevem com aqueles caracteres ou que comem com pauzinhos. Em vez disso, ele fala sobre encontrar homens com cabeça de cachorro e uma ave gigantesca capaz de pegar um elefante com as garras. Portanto, sou cético quanto a toda a história dele. Talvez Rustichello de Pisa, seu ghostwriter, seja o responsável por esses exageros. Quem sabe? De qualquer forma, vi o lugar que os venezianos afirmam ser onde ele viveu, a Corte del Milion. Mas ninguém parece saber sequer qual era a casa. Havia uma placa acima de um restaurante dizendo que era ali, mas agora está coberta por um tapume, já que o restaurante está em reforma. Enquanto eu estava lá, um guia turístico trouxe um grupo e apontou para a casa à esquerda, dizendo que era aquela. Alguns minutos depois, outro grupo chegou, e o guia deles apontou para a casa do lado direito. Parecia quase uma história contada pelo próprio Marco Polo.
Casa do Marco Polo (ou talvez não)
Encontrar a casa onde o Byron viveu em Venezia tampouco foi fácil. Tudo o que se sabe é que ele alugou o segundo andar do Palazzo Mocenigo no Grand Canal, mas isso não é um único edifício, e sim vários prédios agrupados. Supõe-se que ele tenha ficado na seção central do complexo, acompanhado de seus quatorze criados, dois macacos, uma raposa, e vários cães.
Outra casa de escritor que visitei foi a do Carlo Goldoni, que hoje é um museu. Goldoni, claro, foi um dramaturgo famoso e prolífico, autor de tragédias, comédias, e libretos de ópera. O museu é muito pequeno, apenas três salas, mas a escadaria que leva até ele é fantástica.
Casa do Goldoni
Na Basilica Santa Maria Gloriosa dei Frari, vi o túmulo piramidal do Antonio Canova (muito maior que a pirâmide do Nicolas Cage no cemitério de New Orleans). Mas não é realmente o túmulo dele, porque seu corpo está enterrado em Possagno, sua cidade natal. Porém, num evento bizarro, retiraram seu coração e o colocaram nesse túmulo veneziano. Não bastando isso, ainda cortaram sua mão direita e a preservaram num vaso na Accademia di Belle Arti, em Venezia. Era assim que tratavam as celebridades por aqui.
Pirâmide do Canova
Também visitei a pequena Santa Maria della Pietà, chamada por muitos de "a igreja do Vivaldi". Mas ele já estava morto quando começaram a construir essa igreja, e obviamente nunca tocou ali. Os concertos que ele regeu aconteceram numa igreja anterior, aproximadamente no mesmo local, ligada ao antigo complexo de orfanato-hospital. Os turistas não sabem disso, ou não se importam, e vão em massa ao local para ouvir Le Quattro Stagioni. Eu fui a um desses concertos há mais de trinta anos, quando visitei a cidade pela primeira vez, com meus pais.
Santa Maria della Pietà
Meu orçamento limitado não me permitiu pagar duzentos e cinquenta euros para assistir à ópera Carmen no Teatro La Fenice (Teatro Fênix), mas visitei o edifício durante o dia. É um dos locais mais famosos da história da ópera, tendo estreado obras de Rossini, Bellini, Donizetti, e Verdi. Foi construído em 1755, depois incendiado em 1836, e novamente em 1996. Mas, fiel ao nome, foi reconstruído mais uma vez e reaberto em 2003, preservando um estilo do século 19. Coincidentemente, um dos livros da minha lista de leitura sobre Venezia era Death at La Fenice, da Donna Leon, o primeiro da série do Commissario Guido Brunetti, sobre um assassinato durante a produção de La Traviata no La Fenice.
La Fenice
Também não poderia deixar de visitar o Palazzo Contarini del Bovolo e sua escada externa em espiral quase escheriana. É muito bonito. Você já o viu se assistiu à adaptação de 1952 de Othello, do Orson Welles. E Othello era, não esqueça, "o mouro de Veneza".
Palazzo Contarini del Bovolo
E a comida? E os passeios?
Como você deve ter notado, este texto já está muito longo. Então vamos deixar a comida e os passeios para o próximo. Envio em breve.