O porto veneziano, com a Fortaleza de Koules ao fundo
Creta foi a terra da civilização minoica na Idade do Bronze (isso foi há mais de cinco mil anos). Aí vieram os micênicos, da Grécia continental, e tomaram conta. Depois deles, o Império Romano, o Império Bizantino, a República de Veneza, e o Império Otomano (até os árabes andaluzes controlaram a ilha por um tempo). Creta tornou-se independente em 1898 e se uniu à Grécia em 1913. Todas estas culturas deixaram marcas, refletidas no que se vê pela ilha.
E tem também a mitologia. Lembra da história do Teseu enfrentando o Minotauro dentro de seu labirinto? Foi aqui em Creta. E Dédalo e Ícaro escapando da prisão com asas feitas de penas e cera? Também aqui em Creta. E Talos, o gigantesco homem de bronze que protegia a ilha de piratas (você o viu em Jason and the Argonauts), isso também era em Creta. Ainda não basta? Sabe onde Zeus nasceu? Creta, claro.
Breakfast na minha varandinha
Aluguei um pequeno apartamento em Heraklion (em grego, Iráklio), capital de Creta (em grego, Kríti). Tem uma vista relaxante para o Mar de Creta, que faz parte do Mar Egeu, que por sua vez faz parte do Mar Mediterrâneo. A poucos passos da minha porta fica a Fortaleza de Koules, também chamada Castello a Mare ("Forte no Mar", em italiano). É uma fortificação do século 16 construída pela República de Veneza para defender o porto. Dali, um longo muro se estende mar adentro, servindo tanto como quebra-mar quanto como calçadão (são 5 km de caminhada, ida e volta).
Tem mais arquitetura veneziana antiga pela cidade, incluindo a Loggia Veneziana, a Fonte Morosini, e as Muralhas Venezianas.
Dois artistas muito famosos nasceram em Creta. Doménikos Theotokópoulos (1541-1614) deixou a ilha para viver na Itália e depois na Espanha, onde ficou conhecido como El Greco e celebrado como um dos maiores pintores de todos os tempos. A poucos quarteirões do meu apartamento, há um pequeno parque com o nome dele, com um busto no centro. O Museu Histórico de Creta, também perto do meu apartamento, tem dois quadros dele, da primeira fase. Nikos Kazantzakis (1883-1957) é o escritor mais aclamado da história recente da Grécia, autor de Zorba, o Grego (minha leitura noturna enquanto estou aqui) e A Última Tentação de Cristo, entre outros. O Museu Histórico de Creta exibe seu escritório e sua biblioteca, transferidos da sua casa em Antibes, na França. Eu vi seu túmulo, no topo das Muralhas Venezianas, marcado com o epitáfio: "Não espero nada. Não temo nada. Sou livre."
Outro pequeno museu interessante perto do meu apartamento é o Museu de Tecnologia Grega Antiga. Ele exibe réplicas funcionais de máquinas fascinantes de muitos séculos atrás, incluindo relógios hidráulicos, instrumentos astronômicos, um pantógrafo, vários autômatos, instrumentos musicais, e mais. Uma das estrelas da exposição é um modelo do mecanismo de Anticítera (há alguns anos, vi os fragmentos originais no Museu Arqueológico Nacional de Atenas). É considerado o computador analógico mais antigo conhecido, usado para prever eventos astronômicos como eclipses, possivelmente datando do século 2 ou 3 BCE. Eles também têm um órgão hidráulico do século 3 BCE, o primeiro instrumento de teclado do mundo.
Órgão hidráulico
Mas o grande museu de Creta é o Museu Arqueológico de Heraklion, que contém um tesouro de arte minoica, a maior parte proveniente do Palácio de Minos, em Knossos (mais sobre isso depois). Muitos objetos que sempre vemos em livros de história da arte estão lá, como as Estatuetas da Deusa das Serpentes (é discutível o que realmente representavam) ou o Disco de Phaistos (inscrito numa língua desconhecida e com finalidade desconhecida). Minhas peças favoritas foram o absolutamente deslumbrante Ríton de Cabeça de Touro (ríton é um recipiente com aberturas na parte superior e inferior, usado para verter líquidos) e o Afresco dos Golfinhos (parte de uma parede maior), ambos por volta de 1500 BCE.
Bull's Head RhytonDolphins Fresco
Cinco quilômetros ao sul de Heraklion ficam as famosas ruínas de Knossos. O que foi escavado e parcialmente reconstruído é o grande palácio real, construído por volta de 1900 BCE. Era o centro da civilização minoica, nomeada em homenagem ao mítico rei Minos, filho de Zeus e Europa. Todas aquelas histórias do Teseu enfrentando o Minotauro e de Dédalo e Ícaro fugindo do labirinto com asas de penas e cera vêm daqui.
KnossosKnossosKnossos
Terremoto e outros desastres
Numa chuvosa manhã de sexta-feira, acordei com o chão tremendo. Um terremoto, magnitude 5,8. Nada catastrófico como o do ano 365, que destruiu grande parte da ilha, mas forte o suficiente para atrapalhar meu sono.
O outro desastre foi minha velha câmara Fujifilm X-T2 decidir que queria se aposentar do serviço ativo. Ela começou a falhar quando eu estava no Laos, com os controles de abertura travando. Agora é o mecanismo de foco que está emperrando, às vezes não focando, às vezes disparando fotos antes do que eu quero. A câmera tem quase dez anos, então não posso reclamar, mas dói porque não tenho orçamento para substituí-la. Acho que por enquanto vou ter que me contentar com fotos de iPhone, de qualidade inferior.
E a comida?
Na maior parte do tempo, comi as mesmas coisas que em Rodes: moussaka, soutzoukakia, gyros, souvlaki, kleftiko, e pita com tzatziki. As novidades do cardápio foram o saganaki de camarão (camarão em molho de tomate com queijo feta, geralmente com um pouco de ouzo no molho) e um bom porco assado com batatas (que comi numa vila chamada Tzermiado, no meio do nada).
Mas tinha algo especial que eu queria provar, um prato tradicional cretense chamado antikristo. A palavra significa "oposto" em grego, e é usada porque o cordeiro é assado ao redor do fogo, de frente para as chamas, geralmente numa estrutura de metal. Basta salgar, deixar assar por algumas horas, e servir com batatas assadas. Delicioso.
E os passeios?
Heraklion, onde fiquei, é a capital e a maior cidade da ilha (cerca de 200 mil habitantes). Também visitei a segunda e a terceira maiores cidades, Chania (110 mil habitantes) e Rethymno (40 mil habitantes).
Chania (em grego, Khaniá), 145 km a oeste de Heraklion, tem uma área portuária bonita, fechada ao tráfego e cheia de restaurantes. O farol atual foi construído em 1864 no mesmo local do farol veneziano medieval.
Porto de ChaniaRuazinha em ChaniaAlmocei um gyros de frango sentado neste banco
Rethymno, 80 km a oeste de Heraklion, ainda tem uma cidadela veneziana bem preservada, a Fortezza de Rethymno. O farol é menor que o de Chania, mas mais antigo, construído em 1830 durante o curto período em que o Egito governou Creta.
Fortezza de RethymnoFarol de RethymnoO mar em Rethymno
E depois de Heraklion?
Amanhã me mudo para Veneza, e troco o kalimera e o kalispera por buongiorno e buonasera. Mas essa é uma história para outra hora. Arrivederci!