054Agosto 2026 · África

Um mês em Marrakesh

Um mês em Marrakesh
Badi Palace

Esta é minha primeira vez no Marrocos e minha primeira vez na África. Agora já morei nos seis continentes habitados (e não, não pretendo morar na Antártida com os pinguins).

Quando os franceses assumiram o controle do Marrocos no início do século 20, construíram uma nova Marrakesh ao lado da antiga. Hoje é tudo a mesma cidade, mas as diferenças são claras. A cidade antiga é a medina (que literalmente significa "cidade"), cheia de ruas estreitas e tortuosas, souks barulhentos (mercados ao ar livre) e riads escondidos (casas tradicionais marroquinas com um pátio central aberto). A cidade nova, Guéliz (batizada em homenagem ao vizinho Monte Guéliz), onde moro, tem um ar mais europeu, com avenidas largas, praças públicas e uma arquitetura vagamente Art Déco.

Medina de Marrakesh
Medina de Marrakesh
A caminhada do meu apartamento até a medina é de menos de 3 km, então explorei boa parte de Marrakesh a pé (e meu tornozelo esquerdo agora está quase totalmente recuperado). Vi muitas mesquitas, mas apenas as fachadas, porque não muçulmanos não podem entrar. Os palácios, porém, estão abertos a todos os turistas.
Koutoubia
Koutoubia
O Badi Palace ("Palácio das Maravilhas") foi construído no século 16 por ordem do sultão Ahmad al-Mansur e, apesar de hoje estar em grande parte em ruínas, continua impressionante. Tem, entre outras coisas, um enorme pátio, um espelho d'água central, e quatro jardins rebaixados repletos de laranjeiras.
Badi Palace
Badi Palace
O Bahia Palace é muito mais recente, encomendado pelo grão-vizir Si Musa no século 19. Possui mais de cem cômodos, todos decorados com mosaicos de azulejos, tetos de madeira pintada, e estuques esculpidos. Há também pátios internos de vários tamanhos (o maior deles estava em restauração).
Bahia Palace
Bahia Palace
A Ben Youssef Madrasa também está aberta aos visitantes e possui uma arquitetura muito interessante. Uma madrasa é uma escola árabe na qual a religião é frequentemente a principal disciplina. Esta foi construída no século 16 e hoje está vazia, mas em excelente estado de conservação.
Ben Youssef Madrasa
Ben Youssef Madrasa
Ben Youssef Madrasa
Ben Youssef Madrasa
Outro belo palácio é o Dar el Bacha (o nome significa "casa do paxá"), construído em 1910. Não é enorme, mas tem um elegante pátio central muito bem decorado, com mosaicos, laranjeiras, e a inevitável fonte. O edifício abriga o pequeno Museum of Confluences e, mais importante, o famoso Bacha Coffee (eu já havia visitado a cafeteria deles em Bangkok, mas esta é a original). Winston Churchill era um frequentador assíduo (costumava passar temporadas em Marrakesh para pintar) e Colette também (visitava a cidade com frequência, sobre a qual escreveu em Prisons et Paradis).
Dar el Bacha
Dar el Bacha
Dar el Bacha
Dar el Bacha
Bacha Café
Bacha Café
Encontrei também outros museus, é claro. O Musée d'Art et de Culture de Marrakech apresentava uma grande exposição retrospectiva do artista contemporâneo local Abderrahim Iqbi, que pinta criaturas enigmáticas que parecem formar uma mitologia muito pessoal. O Monde des Arts de la Parure, como o próprio nome diz, é um museu dedicado aos adornos corporais. Mas a principal atração é o próprio edifício, com uma claraboia octogonal e um restaurante-jardim na cobertura (onde comi um ótimo falafel acompanhado de limonada). Já La Maison de la Photographie é um museu pequeno, mas excelente, dedicado principalmente a fotografias do Marrocos antigo.
Falafel no jardim
Falafel no jardim

E o calor?


Sim, o calor aqui é impossível de ignorar. No dia em que cheguei, a temperatura atingiu apenas 37°C, o que eles consideram ameno. Depois começou a esquentar. E esquentar. E esquentar. O dia mais quente da minha vida tinha sido, até então, 1º de agosto de 1989, em Sevilla, com 44,8°C. Aqui em Marrakesh, esse recorde foi quebrado em 23 de julho de 2026, quando os termômetros marcaram 45,8°C. (Sim, eu anoto essas coisas. E, antes que você pergunte, o dia mais frio da minha vida foi 17 de janeiro de 2009, em Washington DC, com −13,0°C.)

Este não é o calor desconfortável de lugares como Vietnam ou Cambodia, onde a umidade costuma ficar entre 70% e 90%. Aqui é um calor desértico assassino, com umidade entre 10% e 30%. Sol brutal, praticamente nenhuma nuvem, quase nenhum vento (o que na verdade é bom, porque quando venta parece que alguém ligou um secador de cabelo na sua direção).

Felizmente, o apartamento tinha um bom ar-condicionado e um sofá confortável para assistir a séries na televisão. Literalmente, Netflix and chill.

Newsletter photograph
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E a comida?


A maioria das pessoas vai dizer que o prato nacional do Marrocos é o tagine. Mas a questão é um pouco mais complicada, porque tagine não é necessariamente o prato, e sim o recipiente em que ele é preparado, que pode conter os mais diversos ingredientes. Pode ser frango, pode ser carne bovina, pode ser peixe, e continua sendo chamado de tagine. O importante é a tampa cônica, que retém o vapor e o devolve à panela, permitindo preparar o ensopado com menos água do que o habitual.
Chicken tagine
Chicken tagine
Outro prato muito popular é o couscous, feito de grânulos de sêmola misturados com caldo e cobertos com legumes e frango ou carne bovina (muitos restaurantes aqui o chamam de couscous aux sept legumes). Pessoalmente, prefiro a versão brasileira, o cuscuz, feito com farinha de milho em vez de sêmola e servido com grão-de-bico, ovos cozidos, e atum.
Couscous aux sept legumes
Couscous aux sept legumes
Outras opções populares incluem pratos encontrados em vários outros países, como a kefta (uma mistura de carne moída, cebola e especiarias grelhada no espeto), que já comi na Albânia, entre outros lugares, ou o pita poulet (sanduíche de frango grelhado servido no pão pita), que já comi na Grécia, entre outros lugares.
Kefte
Kefte
Eu não sabia que o Marrocos produzia vinho, mas produz. O melhor que experimentei foi o Château Roslane Premier Cru 2023, da região de Meknès, uma mistura de Cabernet Sauvignon, Syrah, e Merlot. Ficou excelente acompanhado de uma tábua de queijo de cabra local, nozes locais, e figos secos locais.

E os passeios?


Bem, estando no Marrocos, eu precisava passar alguns dias em Casablanca, onde Rick Blaine reencontrou Ilsa Lund. Enquanto Marrakesh (cerca de um milhão de habitantes) é o coração histórico e simbólico do país, definido por sua medina labiríntica, seus palácios centenários, e seus souks movimentados, Casablanca (mais de três milhões de habitantes) é a moderna capital econômica do Marrocos: uma vasta metrópole atlântica de grandes avenidas, distritos comerciais, arquitetura Art Déco, e bairros onde a vida cotidiana normalmente tem prioridade sobre o turismo.

Uma das diferenças mais marcantes é que Marrakesh muitas vezes parece inacabada, mesmo em seus bairros mais ricos. As calçadas são irregulares, as fachadas das lojas tendem a ser mais funcionais do que elegantes, e muitos cafés utilizam simples mesas de plástico e cadeiras de metal, dando à cidade um aspecto nitidamente utilitário. Casablanca, em contraste, apresenta um tecido urbano muito mais refinado. Grandes áreas da cidade parecem completamente consolidadas, com avenidas bem planejadas, edifícios modernos, e cafés cuja decoração e atmosfera não destoariam de nenhuma capital europeia.

Hassan II Mosque
Hassan II Mosque
Visitei o El Hank Lighthouse (o farol mais alto do Marrocos, construído em 1916) e a Hassan II Mosque (a segunda maior mesquita da África, inaugurada em 1993), ambos à beira-mar. A brisa refrescante é outra diferença imediatamente perceptível em relação ao clima desértico de Marrakesh.
El Hank Lighthouse
El Hank Lighthouse
Andei muito pelas ruas de Casablanca, da antiga medina (do fim do século 18) até a nova medina (construída entre 1917 e 1923), também chamada Quartier Habous, da Mohammed V Square (onde ficam o Palais de Justice e o Hotel de Ville) até o Arab League Park (onde está a desativada Église du Sacré-Coeur, às vezes chamada de Cathédrale de Casablanca, embora nunca tenha sido uma catedral), além de muitos outros lugares.

Também almocei no Rick's Café. O nome é uma homenagem ao bar do Humphrey Bogart em Casablanca, mas o local não tenta reproduzir o cenário do filme. Em vez disso, funciona numa mansão marroquina tradicional da década de 1930, com pátio central, arcos em ferradura, madeira entalhada, e revestimentos de zellige. O lugar parece mais marroquino do que o bar do filme, que foi construído em Hollywood. Comi um excelente couronne de strogonoff du boeuf acompanhado de uma refrescante citronade.

Couronne de strogonoff du beuf
Couronne de strogonoff du beuf

E depois de Marrakesh?


Pelos próximos três meses estarei nos EUA, principalmente na região de New York. Se você estiver por perto, avise e quem sabe possamos nos encontrar em algum lugar. See ya later!
Uma loja em Marrakesh
Uma loja em Marrakesh