Esta é minha primeira vez no Marrocos e minha primeira vez na África. Agora já morei nos seis continentes habitados (e não, não pretendo morar na Antártida com os pinguins).
Quando os franceses assumiram o controle do Marrocos no início do século 20, construíram uma nova Marrakesh ao lado da antiga. Hoje é tudo a mesma cidade, mas as diferenças são claras. A cidade antiga é a medina (que literalmente significa "cidade"), cheia de ruas estreitas e tortuosas, souks barulhentos (mercados ao ar livre) e riads escondidos (casas tradicionais marroquinas com um pátio central aberto). A cidade nova, Guéliz (batizada em homenagem ao vizinho Monte Guéliz), onde moro, tem um ar mais europeu, com avenidas largas, praças públicas e uma arquitetura vagamente Art Déco.
Medina de Marrakesh
A caminhada do meu apartamento até a medina é de menos de 3 km, então explorei boa parte de Marrakesh a pé (e meu tornozelo esquerdo agora está quase totalmente recuperado). Vi muitas mesquitas, mas apenas as fachadas, porque não muçulmanos não podem entrar. Os palácios, porém, estão abertos a todos os turistas.
Koutoubia
O Badi Palace ("Palácio das Maravilhas") foi construído no século 16 por ordem do sultão Ahmad al-Mansur e, apesar de hoje estar em grande parte em ruínas, continua impressionante. Tem, entre outras coisas, um enorme pátio, um espelho d'água central, e quatro jardins rebaixados repletos de laranjeiras.
Badi Palace
O Bahia Palace é muito mais recente, encomendado pelo grão-vizir Si Musa no século 19. Possui mais de cem cômodos, todos decorados com mosaicos de azulejos, tetos de madeira pintada, e estuques esculpidos. Há também pátios internos de vários tamanhos (o maior deles estava em restauração).
Bahia Palace
A Ben Youssef Madrasa também está aberta aos visitantes e possui uma arquitetura muito interessante. Uma madrasa é uma escola árabe na qual a religião é frequentemente a principal disciplina. Esta foi construída no século 16 e hoje está vazia, mas em excelente estado de conservação.
Ben Youssef MadrasaBen Youssef Madrasa
Outro belo palácio é o Dar el Bacha (o nome significa "casa do paxá"), construído em 1910. Não é enorme, mas tem um elegante pátio central muito bem decorado, com mosaicos, laranjeiras, e a inevitável fonte. O edifício abriga o pequeno Museum of Confluences e, mais importante, o famoso Bacha Coffee (eu já havia visitado a cafeteria deles em Bangkok, mas esta é a original). Winston Churchill era um frequentador assíduo (costumava passar temporadas em Marrakesh para pintar) e Colette também (visitava a cidade com frequência, sobre a qual escreveu em Prisons et Paradis).
Dar el BachaDar el BachaBacha Café
Encontrei também outros museus, é claro. O Musée d'Art et de Culture de Marrakech apresentava uma grande exposição retrospectiva do artista contemporâneo local Abderrahim Iqbi, que pinta criaturas enigmáticas que parecem formar uma mitologia muito pessoal. O Monde des Arts de la Parure, como o próprio nome diz, é um museu dedicado aos adornos corporais. Mas a principal atração é o próprio edifício, com uma claraboia octogonal e um restaurante-jardim na cobertura (onde comi um ótimo falafel acompanhado de limonada). Já La Maison de la Photographie é um museu pequeno, mas excelente, dedicado principalmente a fotografias do Marrocos antigo.
Falafel no jardim
E o calor?
Sim, o calor aqui é impossível de ignorar. No dia em que cheguei, a temperatura atingiu apenas 37°C, o que eles consideram ameno. Depois começou a esquentar. E esquentar. E esquentar. O dia mais quente da minha vida tinha sido, até então, 1º de agosto de 1989, em Sevilla, com 44,8°C. Aqui em Marrakesh, esse recorde foi quebrado em 23 de julho de 2026, quando os termômetros marcaram 45,8°C. (Sim, eu anoto essas coisas. E, antes que você pergunte, o dia mais frio da minha vida foi 17 de janeiro de 2009, em Washington DC, com −13,0°C.)
Este não é o calor desconfortável de lugares como Vietnam ou Cambodia, onde a umidade costuma ficar entre 70% e 90%. Aqui é um calor desértico assassino, com umidade entre 10% e 30%. Sol brutal, praticamente nenhuma nuvem, quase nenhum vento (o que na verdade é bom, porque quando venta parece que alguém ligou um secador de cabelo na sua direção).
Felizmente, o apartamento tinha um bom ar-condicionado e um sofá confortável para assistir a séries na televisão. Literalmente, Netflix and chill.
E a comida?
A maioria das pessoas vai dizer que o prato nacional do Marrocos é o tagine. Mas a questão é um pouco mais complicada, porque tagine não é necessariamente o prato, e sim o recipiente em que ele é preparado, que pode conter os mais diversos ingredientes. Pode ser frango, pode ser carne bovina, pode ser peixe, e continua sendo chamado de tagine. O importante é a tampa cônica, que retém o vapor e o devolve à panela, permitindo preparar o ensopado com menos água do que o habitual.
Chicken tagine
Outro prato muito popular é o couscous, feito de grânulos de sêmola misturados com caldo e cobertos com legumes e frango ou carne bovina (muitos restaurantes aqui o chamam de couscous aux sept legumes). Pessoalmente, prefiro a versão brasileira, o cuscuz, feito com farinha de milho em vez de sêmola e servido com grão-de-bico, ovos cozidos, e atum.
Couscous aux sept legumes
Outras opções populares incluem pratos encontrados em vários outros países, como a kefta (uma mistura de carne moída, cebola e especiarias grelhada no espeto), que já comi na Albânia, entre outros lugares, ou o pita poulet (sanduíche de frango grelhado servido no pão pita), que já comi na Grécia, entre outros lugares.
Kefte
Eu não sabia que o Marrocos produzia vinho, mas produz. O melhor que experimentei foi o Château Roslane Premier Cru 2023, da região de Meknès, uma mistura de Cabernet Sauvignon, Syrah, e Merlot. Ficou excelente acompanhado de uma tábua de queijo de cabra local, nozes locais, e figos secos locais.
E os passeios?
Bem, estando no Marrocos, eu precisava passar alguns dias em Casablanca, onde Rick Blaine reencontrou Ilsa Lund. Enquanto Marrakesh (cerca de um milhão de habitantes) é o coração histórico e simbólico do país, definido por sua medina labiríntica, seus palácios centenários, e seus souks movimentados, Casablanca (mais de três milhões de habitantes) é a moderna capital econômica do Marrocos: uma vasta metrópole atlântica de grandes avenidas, distritos comerciais, arquitetura Art Déco, e bairros onde a vida cotidiana normalmente tem prioridade sobre o turismo.
Uma das diferenças mais marcantes é que Marrakesh muitas vezes parece inacabada, mesmo em seus bairros mais ricos. As calçadas são irregulares, as fachadas das lojas tendem a ser mais funcionais do que elegantes, e muitos cafés utilizam simples mesas de plástico e cadeiras de metal, dando à cidade um aspecto nitidamente utilitário. Casablanca, em contraste, apresenta um tecido urbano muito mais refinado. Grandes áreas da cidade parecem completamente consolidadas, com avenidas bem planejadas, edifícios modernos, e cafés cuja decoração e atmosfera não destoariam de nenhuma capital europeia.
Hassan II Mosque
Visitei o El Hank Lighthouse (o farol mais alto do Marrocos, construído em 1916) e a Hassan II Mosque (a segunda maior mesquita da África, inaugurada em 1993), ambos à beira-mar. A brisa refrescante é outra diferença imediatamente perceptível em relação ao clima desértico de Marrakesh.
El Hank Lighthouse
Andei muito pelas ruas de Casablanca, da antiga medina (do fim do século 18) até a nova medina (construída entre 1917 e 1923), também chamada Quartier Habous, da Mohammed V Square (onde ficam o Palais de Justice e o Hotel de Ville) até o Arab League Park (onde está a desativada Église du Sacré-Coeur, às vezes chamada de Cathédrale de Casablanca, embora nunca tenha sido uma catedral), além de muitos outros lugares.
Também almocei no Rick's Café. O nome é uma homenagem ao bar do Humphrey Bogart em Casablanca, mas o local não tenta reproduzir o cenário do filme. Em vez disso, funciona numa mansão marroquina tradicional da década de 1930, com pátio central, arcos em ferradura, madeira entalhada, e revestimentos de zellige. O lugar parece mais marroquino do que o bar do filme, que foi construído em Hollywood. Comi um excelente couronne de strogonoff du boeuf acompanhado de uma refrescante citronade.
Couronne de strogonoff du beuf
E depois de Marrakesh?
Pelos próximos três meses estarei nos EUA, principalmente na região de New York. Se você estiver por perto, avise e quem sabe possamos nos encontrar em algum lugar. See ya later!