047Abril 2026 · Ásia

Duas semanas em Phnom Penh

Duas semanas em Phnom Penh
Vista da minha varandinha: o Tonle Sap em primeiro plano e o Mekong lá ao fundo

Phnom Penh, capital do Cambodia, fica na confluência de três rios. O Mekong, que desce do Laos até o Cambodia antes de seguir até o Vietnam. O Bassac, que se separa do Mekong e flui para o sul. E o Tonle Sap, que se conecta ao Lago Tonle Sap, ao norte. Eu aluguei um pequeno apartamento de frente para o Tonle Sap, que tem um comportamento curioso: dependendo da época do ano, ele pode fluir em direção ao Mekong ou de volta para o lago.
Phnom Penh significa "colina de Penh". Segundo a lenda, no século 14, uma viúva rica chamada Penh encontrou uma árvore flutuando no rio e, dentro dela, quatro estátuas de Buda e uma de Vishnu. Ela contratou os moradores para construir uma colina artificial (a cidade recebeu o nome dessa pequena colina) e um templo no topo para abrigar essas estátuas. Foi chamado de Wat Phnom, que significa "templo na colina". Ele foi reconstruído várias vezes, e a versão atual é de 1926. Meu apartamento fica a cerca de 500 metros do Wat Phnom, e eu o visitei algumas vezes.
Interior de Wat Phnom
Interior de Wat Phnom
Outra atração emblemática em Phnom Penh é o Palácio Real do Cambodia. Não é tão grande quanto o Grande Palácio de Bangkok (que foi construído para ser quase uma cidade dentro de outra), mas claramente foi inspirado no palácio tailandês, com camadas de influências khmer e francesas. Também não é tão denso, com menos edifícios, e tem bem menos turistas, o que dá uma boa sensação de espaço. O rei e sua família ainda vivem lá, mas numa área onde os visitantes não podem entrar.
Royal Palace of Cambodia
Royal Palace of Cambodia
O Museu Nacional do Cambodia abriga uma coleção de estátuas religiosas. Há muitos Budas, Vishnus, Brahmas, Ganeshas, Shivas, Indras, Garudas, e vários outros. Também abriga o famoso K-127, uma placa de pedra com inscrições em sânscrito que incluem a mais antiga representação conhecida do número zero, datada de 683 CE. Eu tinha lido sobre isso anos atrás no livro Finding Zero, de Amir D. Aczel, e foi interessante ver aquilo bem diante de mim.
National Museum of Cambodia
National Museum of Cambodia
Phnom Penh parece tão caótica quanto Ho Chi Minh City, mas numa escala muito menor (cerca de 3,5 milhões de pessoas em vez de 20 milhões). Carros e vendedores de rua bloqueando as calçadas quebradas, enxames de motocicletas, ruas sem semáforos ou faixas de pedestres. Uma diferença é que os motoristas aqui diminuem a velocidade para deixar você atravessar, um gesto simpático. No geral, achei as pessoas no Cambodia mais cordiais e mais educadas do que no Vietnam.
Yes, nós temos bananas...
Yes, nós temos bananas...

O calor


Da última vez que estive no Sudeste Asiático, em 2024, fui embora no início de março. Desta vez, estou ficando mais tempo e começando a sentir o calor brutal que antecede a temporada das monções. E Phnom Penh não tem saída para o mar, o que piora a situação. A temperatura diurna costuma ficar entre 35ºC e 38ºC, mas a alta umidade faz com que a sensação térmica chegue facilmente a 40ºC. Caminhar na beira dos rios ao menos oferece uma brisa ocasional e reconfortante, mas em qualquer outro lugar há um calor úmido e opressivo que drena nossaa energias.

E os passeios?


Um dos principais motivos que me fizeram vir ao Cambodia foi visitar o Parque Arqueológico de Angkor. Quando o Império Khmer (802 a 1431 CE) dominava grande parte do Sudeste Asiático, Angkor era sua capital. Depois foi conquistada e abandonada. Hoje, abriga as ruínas de mais de mil templos e é um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Eu não fiz aqueles passeios turísticos malucos que colocam você num carro por seis horas, dão três horas para ver "todos os templos", e depois mais seis horas de volta. Em vez disso, montei meu próprio roteiro de dois dias, que não é suficiente para ver tudo, mas pelo menos me permitiu seguir um ritmo melhor e visitar os locais mais importantes. Peguei um voo para Siem Reap (quarenta e cinco minutos), a cidade mais próxima dos sítios arqueológicos, e depois um carro até o hotel (uma hora) que eu havia reservado. De lá, aluguei um tuk-tuk para me levar a onze templos ao longo de dois dias.

Aventuras num tuk-tuk
Aventuras num tuk-tuk
No primeiro dia, fui a Preah Khan (templo budista, século 12), Neak Pean (templo budista numa ilha circular, século 12), Ta Som (templo budista, século 12), East Mebon (templo hindu, dedicado a Shiva, século 10) e Pre Rup (templo hindu, dedicado a Shiva, século 10). Todos são muito interessantes, cada um com características únicas, e nenhum deles restaurado. Depois de tantos séculos, a vegetação se misturou à arquitetura em muitos pontos, e essa combinação torna tudo mais extraordinário.
Preah Khan
Preah Khan
Neak Pean
Neak Pean
Ta Som
Ta Som
Pre Rup
Pre Rup
No segundo dia, visitei Bayon (templo budista, século 13, famoso pelos enormes rostos sorridentes), o Terraço dos Elefantes (plataforma para cerimônias reais, século 12), Baphuon (templo budista, século 11), Chau Say Tevoda (pequeno templo hindu, século 12), Ta Keo (templo hindu, século 11), Ta Prohm (templo budista, século 12, famoso por aparecer no filme Lara Croft: Tomb Raider) e, claro, o mais notório dos templos da região, Angkor Wat.
Bayon South Gate
Bayon South Gate
Baphuon
Baphuon
Ta Keo
Ta Keo
Ta Prohm
Ta Prohm
Angkor Wat é o maior complexo religioso do mundo (para referência, tem mais de três vezes o tamanho de toda a Cidade do Vaticano), construído no início do século 12 como um templo hindu dedicado a Vishnu e posteriormente transformado em templo budista. Angkor Wat é considerado tão importante no Cambodia que até aparece na bandeira nacional.

Todo o Parque Arqueológico de Angkor é fascinante, não apenas pelos templos, mas também pela floresta e pelos animais (vi macacos e búfalos-d'água). É difícil dizer de qual templo gostei mais, pois cada um tem algo diferente dos outros. Foi uma experiência fisicamente exigente. Mesmo com o tuk-tuk me levando de templo em templo, teve muita caminhada e muitas escadas altas e irregulares para subir (meu smartphone indica que percorri mais de vinte quilômetros nessas duas incursões), tudo sob o calor úmido cambojano. Mas foi um grande passeio.

Dentro de Angkor Wat
Dentro de Angkor Wat

E a comida?


Amok trei (amok de peixe) é o prato nacional do Cambodia. O peixe é marinado em kroeung verde (uma pasta feita com capim-limão, canela, gengibre, e curcuma), leite de coco, e ovos, depois colocado num recipiente feito de folhas de bananeira e cozido no vapor. Muito saboroso.

Outros pratos típicos cambojanos que experimentei (sempre evitando os apimentados) foram o beef lok lak (cubos de carne bovina marinados e refogados, servidos com tomate e pepino, às vezes com um ovo frito também) e o cha khnhei sach moan (frango refogado com gengibre, feito com gengibre fresco, muito alho, e molho de ostras). Também comi comida chinesa (muito comum em Phnom Penh) e japonesa (não tão fácil de encontrar por aqui).

O melhor prato que comi no Cambodia foi frango refogado com castanha de caju (frango, pimentão vermelho, pimentão verde, cenoura, cebola, aipo, castanha de caju, servido com arroz jasmim no vapor), enquanto eu estava em Siem Reap. A região produz muita castanha de caju, e eu cheguei a ver, da estrada, plantações cheias de frutos vermelhos.

Acho que sou um bocado aventureiro em termo de comida, mas no Cambodia encontrei dois pratos que não tive vontade alguma de experimentar. Um foi perna de tarântula frita e crocante. O outro foi um sapo inteiro, grelhado no espeto e recheado com carne de porco moída. Eu me perguntei por que comeria aquilo, e não encontrei uma boa razão. Não, obrigado.

Newsletter photograph
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E depois de Phnom Penh?


Minha próxima parada é Vientiane, capital do Laos. Mas essa é uma história para outra hora. La gon! (É assim que se diz "tchau" no Laos, significa "fique bem".)
Arquitetura colonial francesa em Phnom Penh
Arquitetura colonial francesa em Phnom Penh
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