037Outubro 2025 · Ásia

Um mês em Manila

Um mês em Manila
Vista da minha varanda

Depois de três meses muito ativos no Japão, seguidos de dez dias agitados em Hong Kong e Macau, meu plano para as Filipinas era desacelerar e relaxar. E foi exatamente isso que fiz. O clima também contribuiu para minha decisão de ficar em casa a maior parte do tempo, já que choveu em cerca de três das quatro semanas que estive em Manila.

A Cidade de Manila é a capital das Filipinas. No entanto, ela é cercada por outras quinze grandes cidades, todas conectadas numa única megalópole. Portanto, quando as pessoas dizem “Manila”, geralmente não estão se referindo à cidade propriamente dita, mas sim à Grande Manila, esse monstro urbano de quatorze milhões de pessoas. Aluguei um apartamento numa dessas cidades, Makati, conhecida por seus arranha-céus (138 prédios com mais de 100 m de altura) e shopping centers sofisticados.

Meu apartamento no 9º andar tem uma pequena varanda com vista para um parque cheio de árvores. Há um grande shopping center a poucas quadras de distância, com boa variedade de restaurantes. Esta área é, na verdade, um oásis de civilização na Grande Manila, porque a maioria dos outros lugares que visitei na região parecem inabitáveis. Casas e prédios caindo aos pedaços, calçadas esburacadas cheias de vendedores ambulantes, e ruas sujas com um trânsito insano.

Eles têm alguns veículos curiosos por aqui. Os jeepneys são jipes alongados, com dois bancos compridos na parte de trás, e decorações coloridas. São conduzidos por operadores independentes ou pequenos franqueados, cobrindo rotas definidas pelo governo. Os triciclos são motocicletas com sidecar, funcionando como táxis. Curiosamente, tanto os jeepneys quanto os triciclos surgiram no pós-Segunda Guerra Mundial, quando havia um excedente de jipes militares americanos e muitas motos com sidecar deixadas pelos invasores japoneses. E, de fato, alguns desses veículos que circulam hoje parecem estar rodando desde a guerra. Felizmente, também existem táxis comuns aqui.
Jeepneys
Jeepneys
Tricycles
Tricycles
A Espanha colonizou e governou as Filipinas do século 16 ao 19. Quando os habitantes locais finalmente conseguiram iniciar uma revolução e estabelecer uma república, no finalzinho do século 19, a Espanha vendeu o país para os EUA, que permaneceram no controle até o fim da Segunda Guerra Mundial. O legado duradouro da Espanha foi a religião. As Filipinas têm a maior população católica da Ásia e a terceira maior do mundo (atrás apenas do Brasil e do México). O legado duradouro dos EUA foi a língua. Existem dois idiomas oficiais nas Filipinas: inglês e filipino (que é uma versão padronizada da língua nativa original, o tagalog). Todo mundo aqui fala inglês, com um sotaque quase americano, o que permite que o país tenha uma grande indústria de call centers internacionais, empregando mais de um milhão de pessoas.

O inglês filipino tem algumas expressões únicas. Para pedir a conta num restaurante nos EUA você diria “check, please”, no Reino Unido “the bill, please”, mas aqui se diz “bill out, please”. Além disso, aqui você não “liga” ou “desliga” a luz, mas sim “abre” ou “fecha” a luz.

Visitei alguns bons museus. O Museu Ayala, localizado dentro do shopping center Greenbelt, foi provavelmente o melhor, com várias exposições permanentes interessantes. Gold of the Ancestors mostra tesouros pré-coloniais das Filipinas (tinha mais objetos de ouro do que todo o Museo del Oro na Costa Rica). Tem também exposições de cerâmica e tecidos, além de obras de Fernando Amorsolo (pintor de retratos e paisagens, conhecido como o “Velho Mestre da Arte Filipina”) e Fernando Zóbel (um pintor abstrato filipino). Mas a estrela do museu é The Diorama Experience of Philippine History, que narra a história do país em sessenta dioramas muito bem feitos. Também fui ao Museu Nacional de Belas Artes (ótima arte filipina, incluindo obras de Botong Francisco, Nunelucio Alvarado, Vicente Silva Manansala e, claro, Fernando Amorsolo), ao Museu Nacional de Antropologia (onde aprendi sobre a história e a geografia das Filipinas) e ao Museu Yuchengco (com exposições sobre fotografia e sapatos sofisticados – sim, sapatos).

The Mango Pickers (1937), do Fernando Amorsolo
The Mango Pickers (1937), do Fernando Amorsolo
Parte do mural Filipino Struggles Through History (1968), do Botong Francisco
Parte do mural Filipino Struggles Through History (1968), do Botong Francisco
Um dos dioramas sobre história das Filipinas
Um dos dioramas sobre história das Filipinas
O herói nacional das Filipinas é José Rizal. Ele era médico e escreveu romances e ensaios defendendo reformas políticas. Por isso foi preso e executado pelo exército espanhol. Visitei o Parque Rizal, que abriga, entre outras coisas, um grande monumento a Rizal, um pequeno memorial marcando o local de sua execução, estátuas de bronze em tamanho real reencenando sua execução (um pouco mórbido), um pequeno jardim japonês e um pequeno jardim chinês, além da grande estátua Sentinel of Freedom, que celebra Lapu-Lapu, o líder de uma das ilhas que hoje fazem parte das Filipinas e o homem que derrotou Fernão de Magalhães quando os portugueses tentaram conquistar sua ilha.
The Martyrdom of Dr. Jose Rizal (1989), do Eduardo Castrillo
The Martyrdom of Dr. Jose Rizal (1989), do Eduardo Castrillo
Não muito longe dali está o Forte Santiago (ou o que resta dele), uma cidadela construída em 1571, assim como a Catedral de Manila (originalmente do século 16, mas hoje em sua versão dos anos 1950) e a Igreja de San Agustin (a igreja de pedra mais antiga do país, concluída em 1607). Esta última é a única que já vi com a fachada decorada com leões chineses de granito.
Forte Santiago
Forte Santiago
Outro lugar que visitei foi o American War Cemetery, o maior de todos os cemitérios militares americanos no exterior, com mais de dezessete mil túmulos de soldados que morreram na campanha asiática da Segunda Guerra Mundial.
American War Cemetery
American War Cemetery
Também visitei o SM Mall of Asia, o 6º maior shopping center do mundo. Tem todos os tipos de lojas e restaurantes, e até uma arena esportiva (onde estava acontecendo o Campeonato Mundial de Vôlei Masculino de 2025). No entanto, ainda prefiro o Siam Paragon, em Bangkok, que é mais bonito, tem lojas mais interessantes, e é muito melhor organizado, apesar de ser apenas o 20º maior do mundo. Visitar shopping centers nas Filipinas chama a atenção para uma tradição local bizarra: eles começam a celebrar o natal em setembro e “aproveitam” quatro meses de decorações de Papai Noel e músicas natalinas.

E a comida?


O prato nacional das Filipinas parece ser o adobo. Não é exatamente um prato, mas um método de preparo. A carne, geralmente porco ou frango, é parcialmente frita em óleo e depois marinada numa mistura de vinagre, molho de soja, e alho antes de terminar o cozimento. Muito saboroso.

Pratos espanhóis também são típicos por aqui, em suas versões locais. Provei uma deliciosa paella campera, com o frango grelhado separado do arroz e dos frutos do mar, e depois misturado com alioli. Não tão boa quanto a paella espanhola original, mas ainda assim bem interessante.

Restaurantes japoneses e chineses estão por toda parte em Manila, e comi minha cota de salmão teriyaki e arroz frito com camarão. Churrasco ao estilo americano também é comum por aqui, muitas vezes servido com molho java (uma mistura de pasta de amendoim, molho de soja, e açúcar de cana). Outro molho filipino popular é o ketchup de banana, que é tingido de vermelho e não tem gosto nenhum de banana.

Pork belly balsamic adobo
Pork belly balsamic adobo
Paella campera
Paella campera

E os passeios?


Fui a Tagaytay, cerca de 70 km ao sul de Manila. Quando Ronald Reagan estava programado para visitar as Filipinas no início dos anos 1980, o ditador Ferdinand Marcos decidiu construir uma mansão no Monte Sungay apenas para recebê-lo. A visita foi cancelada e a construção simplesmente abandonada. Hoje é apenas uma estrutura decadente, renomeada de Palace in the Sky para People’s Park in the Sky. A mansão inacabada não tem interesse, mas a vista do topo vale a pena. De uma altura de mais de 700 m, é possível ver (quando as nuvens permitem) o Lago Taal e a Volcano Island em seu centro.
Vista do alto do Mount Sungay
Vista do alto do Mount Sungay

E depois de Manila?


Neste fim-de-semana sigo para Sydney, na Austrália, onde ficarei por um mês. Mas essa é uma história para outra hora. Cheers, mate!
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