036Setembro 2025 · Ásia

Dez dias na China (ou talvez não)

Dez dias na China (ou talvez não)

Por que talvez não? Bem, eu visitei Hong Kong e Macau. Ambos são regiões administrativas especiais (SAR) da República Popular da China, o que significa que estão sob o controle do governo chinês, mas ao mesmo tempo têm um alto grau de autonomia (têm sua própria moeda, seus próprios requisitos para vistos, e até mesmo suas próprias equipes olímpicas). Além disso, Hong Kong e Macau foram entidades políticas distintas por muito tempo e só se uniram à China recentemente (1997 e 1999, respectivamente), então, na minha cabeça, eles são países diferentes.

Hong Kong

Há duas línguas oficiais em Hong Kong: chinês e inglês. Mas, para minha surpresa, ninguém parecia saber inglês. Na verdade, foi mais fácil me comunicar no Japão do que aqui, nesta antiga colônia britânica. O que se fala em Hong Kong é o cantonês (como Bruce Lee em Fist of Fury e Jackie Chan em Police Story, não como Chow Yun-fat e Michelle Yeoh em Crouching Tiger, Hidden Dragon).

Hong Kong tem três partes: a Hong Kong Island, a grande ilha no sul, que as pessoas aqui simplesmente chamam de Hong Kong; Kowloon, a parte sul da península ao norte da ilha, do outro lado de Victoria Harbour; e os New Territories, uma grande área a oeste, norte e leste de Kowloon, além de cerca de duzentas pequenas ilhas.

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Eu fiquei num hotel na Hong Kong Island, numa área chamada North Point, num quarto no 27º andar de frente para o Porto de Vitória. O quarto era minúsculo, mas pelo menos tinha uma ótima vista. E a maior atração de Hong Kong é justamente a vista de Victoria Harbour. Caminhei bastante pelos dois lados. No primeiro dia, peguei a balsa bem em frente ao hotel e cruzei do North Point Pier até o Kowloon City Pier, depois caminhei pela orla do outro lado (Hoi Sham Promenade, Laguna Verde Promenade, Hung Hom Promenade, Tsim Sha Tsui Promenade, e a Avenue of the Stars, onde há uma estátua do Bruce Lee), até chegar ao Tsim Sha Tsui Ferry Pier, de onde peguei outro barco e voltei para a Ilha, no Wan Chai Ferry Pier, continuando minha caminhada até o hotel. Foram 10 km de passeio.

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Também fui ao Victoria Peak, um morro de 552 metros de altura, para ter uma boa vista de Victoria Harbour. Para chegar lá, você pega um bondinho chamado Peak Tram, em funcionamento desde 1888. Ali perto fica o Hong Kong Park, um parque agradável com muitas árvores, flores, uma estufa e um viveiro de aves, uma cachoeira artificial, e o Flagstaff House Museum of Teaware (como esperado, cheio de bules, xícaras, e outros utensílios usados para preparar ou servir chá).
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Hong Kong pode parecer linda de longe, com todos aqueles arranha-céus comerciais, mas de perto os prédios residenciais parecem favelas verticais. E há muitos becos e ruelas que não são muito convidativos. Claro que toda grande cidade tem lugares assim, mas em Hong Kong eu vi isso em todos os lados. Um grande contraste com os shopping centers de luxo que também existem por aqui.
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Visitei outros dois museus, ambos grandes e gratuitos. O Hong Kong Museum of Art tinha uma ótima vista do Victoria Harbour, e algumas exposições interessantes de pintura, caligrafia, cerâmica, bronzes, laca, jade, entalhes em bambu, móveis, e até frascos de rapé (usados para carregar folhas de tabaco moídas, que as pessoas cheiravam achando que era uma grande ideia). O Hong Kong Heritage Museum tinha exposições excelentes. A Man Beyond the Ordinary: Bruce Lee celebrava a vida e obra de um dos personagens mais famosos de Hong Kong. The Magic of Hong Kong Comedy Comics era uma homenagem a vários quadrinhos locais que eu nunca tinha ouvido falar. E a Jin Yong Gallery homenageava o escritor mais famoso de Hong Kong, autor de The Legend of the Condor Heroes e The Deer and the Cauldron, entre muitos outros.

E a comida?

Fiquei longe de pratos com ingredientes que não gosto, mas que são muito comuns aqui: fígado, dobradinha, língua, esse tipo de coisa. Felizmente, também é fácil encontrar os pratos que conhecemos de restaurantes chineses no ocidente, como chop suey de carne, frango agridoce, porco agridoce, e porco assado. Também há o dim sum, que são pequenos pãezinhos ou bolinhos recheados com algum tipo de carne (eu preferi os de porco ou camarão).

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Macau

Para ir de Hong Kong a Macau, decidi pegar um ônibus, só porque queria atravessar a Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Na verdade, trata-se de um sistema com três pontes, um túnel subaquático, e quatro ilhas artificiais, ligando Hong Kong a Macau, com um total de 55 km. E é bonito também.

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Há duas línguas oficiais em Macau: chinês e português. Mas não encontrei ninguém que falasse português. E eles tampouco falam inglês. Pelo menos a maioria das placas está escrita em cantonês e português, o que às vezes é divertido por causa do tipo peculiar de português usado em Macau. Por exemplo, em vez de "restaurante", é "estabelecimento de comidas". Meu favorito é o nome que dão para sopa de macarrão: "sopa de fitas".

A moeda de Macau é a pataca, o melhor nome de dinheiro que já vi. Tem exatamente o mesmo valor do dólar de Hong Kong, e em qualquer loja aceitam as duas moedas.

Andei bastante, explorando toda a Península de Macau a pé. Não fui à Ilha da Taipa, ao sul, e fiquei apenas na península, que é a parte mais antiga e populosa de Macau.

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Visitei a Fortaleza da Guia, um forte do século 17 com capela e farol, e a Fortaleza do Monte, outro forte do século 17 que hoje abriga o Museu de Macau. Esses fortes tinham boa visão do mar e canhões prontos para disparar contra navios piratas. O museu conta a história de Macau em objetos e dioramas (eles parecem adorar dioramas por aqui). Perto dali ficam as Ruínas de São Paulo, o que restou de uma igreja católica do século 17 (basicamente só a fachada e algumas pedras da fundação).
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Também fui ao Templo de A-Ma, que aparentemente deu nome a Macau. A história é que, quando os navegadores portugueses chegaram aqui e perguntaram o nome do lugar, os nativos responderam com o nome do templo, "A-maa-gok" ("Pavilhão da Mãe"). Os portugueses adaptaram para "Amacão", que acabou virando "Macau". De qualquer forma, A-Ma é um dos nomes da deusa chinesa do mar, Mazu.
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Outros museus que visitei foram o Museu Marítimo (cheio de modelos de navios e mais dioramas), o Museu de Arte de Macau (com uma exposição de arte contemporânea totalmente desinteressante) e o Centro de Arte Contemporânea (com uma mostra do Serge Bloch, ilustrador francês cujo trabalho me lembrou o grande Sempé).

E a comida?

Em Macau, você encontra tanto comida chinesa, semelhante à de Hong Kong, quanto comida portuguesa, que felizmente foi preservada da época colonial (ao contrário do idioma). A sobremesa mais famosa é o pastel de nata, o mesmo que existe em Portugal. Comi comida chinesa (o melhor foi o arroz frito com salmão e carne de caranguejo) e comida portuguesa (o arroz de pato no forno foi facilmente a melhor refeição que fiz desde que saí do Japão, igual ao original que eu comia em Lisboa, e também provei o tradicional bacalhau à Brás).

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Concluindo

Comecei esta viagem achando que Hong Kong e Macau seriam lugares bem diferentes, com culturas específicas moldadas por seus passados coloniais. Mas agora me parecem duas faces do mesmo país, com a cultura chinesa dominando a vida cotidiana nos dois lados do estuário do Rio das Pérolas.

Dez dias foram suficientes para ver o que eu queria, e fico feliz de ter visitado os dois lugares. Mas não gostaria de morar aqui, por causa de alguns hábitos culturais. Tenho certeza que isso é normal para quem é daqui, mas foram coisas que me incomodaram. Vou listar algumas, da mais leve à pior. Primeiro: você não tem mesa própria nos restaurantes, tem que sentar com desconhecidos. Não estou falando de mesas coletivas grandes, mas de mesas para duas pessoas, você de um lado e um estranho do outro. Você pode ter sorte e encontrar uma boa companhia (se falar chinês), ou pode dar o azar de encarar aquele sujeito que mastiga um pé de frango de boca aberta. Segundo: as pessoas na rua parecem tentar passar através de você. É como se deliberadamente seguissem uma rota de colisão e esperassem que você saísse da frente. Elas esbarram em você e, às vezes, realmente empurram. Isso não aconteceu só comigo, eles fazem isso entre si o tempo todo. Terceiro: as pessoas cospem na calçada. E não estou falando de um cuspezinho rápido e inocente. Não, elas puxam ruidosamente as substâncias mais espessas e viscosas das suas mucosas e as arremessam como pequenos pecados que precisam ser expulsos do corpo e compartilhados com a comunidade, deixando aquele monumento à gosma ali na calçada. Coisas assim corroem a minha qualidade de vida. Enfim, pelo menos tanto Hong Kong quanto Macau têm museus gratuitos. Já é alguma coisa, não é?

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E depois da China?

Neste momento já estou morando em Manila, capital das Filipinas. Mas isso, como você já sabe, é uma história para outra hora. Mabuhay! (É uma saudação filipina que significa algo como "vida longa!", parecido com o "aloha" havaiano.)

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