032Julho 2025 · Ásia

Três meses no Japão, parte um: Tokyo

Três meses no Japão, parte um: Tokyo

Tokyo é uma das maiores cidades do mundo, com aproximadamente quarenta milhões de pessoas na área urbana. Para comparar, usando a mesma métrica, São Paulo tem um pouco mais de vinte milhões e Los Angeles fica em torno de quinze milhões. Tokyo é classificada oficialmente como "prefeitura metropolitana" e se divide em "bairros" que possuem seus próprios prefeitos e câmaras de vereadores. A cidade em si não tem prefeito, tem governador.

Aluguei um apartamento no "bairro" Shinjuku, mais especificamente na área chamada Hyakunincho. O nome significa literalmente "cem pessoas". Em 1596, o shogun criou uma unidade especial de samurais só para proteger o Castelo de Edo, e ofereceu esta área para eles residirem. O nome Hyakunincho continua a ser usado como homenagem a esses samurais. É uma área residencial tranquila, mas não muito longe do burburinho da região da estação de trem. A estação Shinjuku é a mais movimentada do mundo, servindo cerca de quatro milhões de pessoas por dia, e parece quase uma pequena cidade. São mais de cinquenta plataformas de trem, incontáveis corredores labirínticos, centenas de lojas, conexões subterrâneas com pelo menos meia dúzia de shopping centers, e mais de duzentos portões de entrada e saída. E, claro, multidões incessantes circulando como abelhas em busca de flores.

Vista do terraço logo acima do meu apartamento
Vista do terraço logo acima do meu apartamento

Tokyo tem um sistema de transportes excepcional, uma rede complexa de trem, metrô, e ônibus, operada por várias empresas públicas e privadas, É um dos sistemas mais extensos, eficientes, e pontuais do mundo. A rede ferroviária é a espinha dorsal, com trens chegando a cada poucos minutos e ligando a todas as partes da cidade e além. Fica um pouco intenso na hora do rush, mas é tudo muito seguro, limpo, e confiável.

Basta entender este mapa e você pode ir a qualquer lugar em Tokyo
Basta entender este mapa e você pode ir a qualquer lugar em Tokyo

Parques e templos

Apesar das movimentadíssimas estações de trem, do barulho constante de carros tocando jingles pelas ruas, e dos placares e neons iluminando a noite, Tokyo tem surpreendentes oásis de calma. Existem vários parques enormes espalhados pela cidade, onde o caos parece derreter e ser substituído pelo silêncio das árvores e dos lagos.

Perto do meu apartamento, temos o Shinjuku Gyo-en. Como seria de esperar, o parque tem um belo jardim japonês em estilo tradicional, com laguinhos e pontes e vegetação cuidadosamente arranjada. Mas também tem um jardim em estilo francês, outro em estilo inglês, uma estufa com plantas tropicais, e até uma pequena floresta chamada "Haha to ko no mori" ("Floresta da Mãe e da Criança"), com umas 20.000 árvores.

Shinjuku Gyo-en
Shinjuku Gyo-en
Também perto do meu apartamento, fica o Meiji Jingu Gyo-en. Ele contém o templo xintoista Meiji, dedicado ao Imperador Meiji (ele reinou de 1867 a 1912) e sua esposa Imperatriz Shōken. O templo está cercado por uma pequena floresta (cerca de 120.000 árvores) e um jardim cultivado. Quando eu visitei, havia uma exposição de bonsai, com várias árvores centenárias (um dos zimbros tinha seiscentos anos de idade).
Um dos lagos no Meiji Jingu Gyo-en
Um dos lagos no Meiji Jingu Gyo-en
O templo mais famoso é provavelmente o Senso-Ji, que foi construído no ano 645 mas destruído durante a Segunda Grande Guerra e reconstruído nos anos cinquenta. Mas está tão cheio de turistas que perdeu o apelo para mim.
Um dos portões do Senso-Ji
Um dos portões do Senso-Ji
Existem incontáveis templos espalhados pela cidade, e alguns têm histórias interessantes. Lembra do Hattori Hanzō, o ferreiro criador de espadas em Kill Bill (Quentin Tarantino, 2003)? O nome é homenagem ao verdadeiro Hattori Hanzō, um samurai do século 16 que serviu o clan Tokugawa. Eu visitei o templo Sainen-ji, onde está o seu túmulo.

O templo Oiwa-Inari Tamiya está associado a uma história de fantasmas. Um marido matou sua esposa para poder casar com outra mulher. Aí ele começou a ver o fantasma da falecida por todos lados. Até que o fantasma botou seu rosto no corpo da nova mulher, e o marido a matou achando que estava matando o fantasma. Quando ele percebeu o que tinha acontecido, se atirou de um penhasco. Para acalmar o fantasma vingativo, a família dela mandou construir o templo Oiwa-Inari Tamiya. Não é uma história verdadeira mas é uma boa história. Já foi contada milhares de vezes, se transformou em peça de kabuki, e inspirou vários filmes.

Mais um história. Um senhor feudal foi forçado a cometer suicídio ritual (seppuku) por ameaçar um ofical da corte que o tinha ofendido. Seus samurais leais decidiram vingar o mestre e mataram oficial (e todo mundo que estava na sua casa), e depositaram a sua cabeça no túmulo do mestre. Depois, todos se suicidaram também, e ficaram conhecidos como Os 47 Samurais ou Os 47 Ronins (um samurai sem mestre). Esta história é verdadeira, e também apareceu em literatura e em vários filmes. Eu visitei os túmulos, que estão num templo chamado Sengaku-ji.

Também visitei outros jardins, como Korakuen Garden, Kyu-Yasuda Gardens,  o pequeno Yokoamicho Park, Kiyosumi Gardens, Hamarikyu Gardens, e Otaguro Park.

Koishikawa Korakuen Garden
Koishikawa Korakuen Garden
Kiyosumi Gardens
Kiyosumi Gardens
Casa de chá nos Hamarikyu Gardens
Casa de chá nos Hamarikyu Gardens

E os museus?

Sim. Tokyo tem mais de cem museus. Eu visitei alguns.

O Tokyo National Museum, que fica no Ueno Park, tem vários edifícios. Só o jardim já vale a visita, com casas de chá históricas e um lago. Uma das casas de chá ainda funciona, e almocei lá: onigiri de salmão e cavalinha defumada, com missoshiru e picles caseiros. O museu tem uma coleção de centenas de objetos do Japão antigo, incluindo cerâmica, escultura, pintura, mobiliário, joalheria, moedas, e caligrafia. Eles também tinham uma exposição especial de ukiyo-e (gravura em madeira) feito por artistas recentes.

Jardim atrás do Tokyo National Museum
Jardim atrás do Tokyo National Museum
Eu tenho uma prediçeção especial por ukiyo-e, e tive a sorte ver ver várias exposições pela cidade. No Ueno Royal Museum, também no Ueno Park, vi The Five Great Ukiyo-e Artists: Utamaro, Sharaku, Hokusai, Hiroshige, and Kuniyoshi. Estes são os artistas mais importantes da tradição ukiyo-e, e estavam representados com muitas gravuras cada. Uma experiência incrível. No Ota Memorial Museum of Art, vi os trabalhos do Hirezaki Eiho, um artista que levou o ukiyo-e ao século 20. Belas e delicadas ilustrações. O Sumida Hokusai Museum foi decepcionante. São só duas salas, e todas as peças são reproduções. A única coisa interessante foi uma estátua em tamanho real do Hokusai pintando. Uma exposição mais bacana que também não tinha obras originais foi Hokusai: Another Story no Tokyu Plaza Shibuya, uma apresentação audiovisual dos trabalhos do Hokusai, com as gravuras animadas e projetadas nas paredes ao nosso redor, dando a impressão que estamos dentro daquelas cenas.
Nihonbashi (1833), do Utagawa Hiroshige
Nihonbashi (1833), do Utagawa Hiroshige
No fim de julho, voltei ao Ota Memorial Museum of Art para visitar a exposição das Thirty-six Views of Mt. Fuji do Hokusai (na verdade são 46 gravuras, porque a série foi tão bem recebida que o editor pediu para o Hokusai acrescentar dez imagens). É memorável ver a série completa na parede. Não existem muitos conjuntos completos (sabe-se de menos de dez), e não são expostos com frequência (a última vez foi há oito anos). Eu tive sorte de ver uma série completa em 2015 no Museum of Fine Arts em Boston, e esta segunda vez não foi menos impressionate.
The Great Wave off Kanagawa (1831), do Katsushika Hokusai
The Great Wave off Kanagawa (1831), do Katsushika Hokusai
O National Museum of Western Art, também no Ueno Park, sem surpresas, mostra arte ocidental. A coleção principal inclui várias esculturas do Rodin, e trabalhos de Brueghel, Ruysdael, Millais, Rossetti, Courbet, Cézanne, Degas, Manet, Monet, Renoir, Van Gogh, Gauguin, Miró, Picasso, e muitos outros. Quando eu fui eles também tinham uma exposição com obras do San Diego Museum of Art, exibindo Giotto, Fra Angelico, Rubens, El Greco, Zurbarán, Murillo, Bellotto, Degas, Sorolla, entre outros. No final de julho eu voltei para ver outra exposição, Picasso: Human Figures, que era pequena mas bem interessante.

O Tokyo Metropolitan Art Museum, também no Ueno Park, tinha uma enorme exposição do Miró, com muitas obras que eu nunca tinha visto. Ocasionalmente, essas retrospectivas pegam emprestados quadros normalmente escondidos em coleções privadas, e foi o caso aqui. Uma boa continuação para a minha visita à Joan Miró Foundation em Barcelona no ano passado.

No Mitsubishi Ichigokan Museum, vi uma exposição comparando quadros do Renoir e do Cézanne lado a lado. O Cézanne sempre ganha, claro. O museu também tinha outra exposição de arte ocidental, Modern French Landscape Paintings - From Corot to Matisse.

La Barque et les Baigneurs (1888), do Paul Cézanne
La Barque et les Baigneurs (1888), do Paul Cézanne
No Sompo Museum of Art, vi Les 7 Passions de Foujita, uma retrospectiva do Tsuguharu Foujita, um pintor japonês que decolou sua carreira na Paris do início do século 20. E ele também estava na Tokyo Station Gallery, com a exposição Foujita: Painting and Photography.

Outra artista japonesa muito famosa é a Yayoi Kusama, também conhecida como a mulher que pinta bolinhas, e eu visitei o museu dela, que, sem surpresa, é cheio de bolinhas.

O Yoku Moku Museum tem uma coleção de cerâmica do Picasso, da época que ele passou em Vallauris (eu visitei o estúdio dele lá quando morei em Nice). O Artizon Museum tinha uma boa coleção de arte ocidental do começo do século 20: Sisley, Pissarro, Cézanne, Gauguin, Matisse, Renoir, Klee, Picasso, Miró, e vários outros.

No National Art Center, vi a exposição de arquitetura Living Modernity, com trabalhos de Mies van der Rohe, Frank Gehry, Lina Bo Bardi, Alvar Aalto, Kameki Tsuchiura, Koji Fujii, entre outros.

O Yamatane Museum of Art tinha uma exposição da Uemura Shōen, uma artista japonesa do início do século 20 que pintava mulheres bonitas em tela de seda. O Asakura Museum of Sculpture é a excepcional casa-atelier do escultor japonês Fumio Asakura. Eu gostaria de ter uma casa assim, com quartos em estilo tradicional japonês ao redor de um jardim central com um laguinho relaxante cheio de carpas.

No Sato Sakura Museum, havia uma exposição de arte contemporânea japonesa um pouco sem graça. Também visitei o Tokyo Photographic Art Museum, o Museum of Contemporary Art Tokyo, o Japanese Sword Museum, o Miyamoto-Unosuke Drum Museum, o Suginami Animation Museum, e o Ad Museum Tokyo.

Tokyo Photographic Art Museum
Tokyo Photographic Art Museum
O Shinjuku Historical Museum mostra a história do bairro em objetos de diferentes períodos. Existem vários museus deste tipo em Tokyo, e alguns até têm casas inteiras lá dentro no estilo Edo ou Meiji. Outros deste tipo que visitei foram o Shitamachi Museum e o Fukagawa Edo Museum.

Eu pratiquei judô por toda a minha adolescência, e sempre disse que um dia iria visitar a Kodokan, centro mundial da comunidade de judocas, fundada pelo Jigoro Kano. Então, muitos anos depois, esse dia chegou. Eles têm um pequeno Kodokan Judo Museum, mas eu escapei para o sétimo andar do edifício, que estava vazio, para ver o famoso dojo principal da Kodokan. Fascinante.

O dojo principal no Kodokan Judo Institute
O dojo principal no Kodokan Judo Institute
Um museu que não consegui visitar foi o Ghibli Museum, sobre os filmes feitos pelo Hayao Miyazaki e seus colegas do Studio Ghibli. Eles só vendem os ingressos para o mês seguinte no décimo dia deste mês. Eu estava lá, online, uma hora antes da venda começar. Aí recebi uma mensagem dizendo que dez mil pessoas estavam na fila antes de mim. Uma hora depois, quando chegou a minha vez, os ingressos já estavam todos vendidos. A única coisa que consegui ver foi o relógio gigante que o Miyazaki fez para a Tokyo NTV. Muita gente chama de The Giant Ghibli Clock, mas o nome oficial é The Ni-Tele Really Big Clock. É feito de cobre e placas de aço, 12 metros de altura por 18 metros de largura, com 32 mecanismos que se movem para marcar a hora do dia. Projetado logo depois de Howl's Moving Castle, tem o mesmo estilo steampunk.
The Ni-Tele Really Big Clock
The Ni-Tele Really Big Clock

Palácios e castelos

O Akasaka Palace é onde o governo japonês hospeda dignatários internacionais, como o presidente Donald Trump em 2017 e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025. É um palácio suntuoso construído em 1909 no estilo Neo-Barroco (bem ocidental).

Akasaka Palace
Akasaka Palace
Do Edo Castle original, sede do shogunato Tokugawa de 1603 a 1868, bem pouco resta. A parte central, onde o shogun morava, foi destruída várias vezes pelo fogo e reconstruída depois de cada incêndio. Houve um grande incêndio em 1657 que devastou a maior parte da cidade. Outro em 1844. E em 1873, cinco anos depois da queda do shogunato Tokugawa e da restauração do Imperador Meiji, queimou tudo novamente. Dessa vez eles não reconstruiram. Hoje, podemos visitar e ver o que ainda está lá: algumas paredes de pedra, o fosso, portões, duas torres de vigia, e a base de pedra do castelo original. O que era uma pequena cidade para o shogun, suas esposas, e alguns nobres, agora é um parque chamado Imperial Palace East Garden.
Fosso, muro, e torres do Edo Castle
Fosso, muro, e torres do Edo Castle

Taiko

Eu sou grande admirador do taiko (tambores japoneses), e tive sorte de assistir os grupos Wadaiko Yamato e Kodo Taiko quando tocaram em Washington DC (em 2007 e 2009, respectivamente). Aqui em Tokyo não foi fácil achar um show de taiko (eles normalmente não se apresentam no verão), mas acabei conseguindo ver o Drum Tao, um grupo jovem e vibrante. Ótimo espetáculo.

Terremoto!

Ah, sim, passei por dois pequenos terremotos em Tokyo. Na sexta-feira 13 de junho, magnitude 4.2. Na terça-feira 15 de julho, magnitude 4.8. Em ambas ocasiões, foi o suficiente para fazer tudo chacoalhar aqui no meu apartamento no décimo andar.

E a comida?

Esta newsletter já está muito longa, e há tanto para falar sobre comida japonesa, então vou deixar o assunto para a segunda parte, que enviarei em breve. Sayonara!

Fukagawa Edo Museum
Fukagawa Edo Museum