Tokyo é uma das maiores cidades do mundo, com aproximadamente quarenta milhões de pessoas na área urbana. Para comparar, usando a mesma métrica, São Paulo tem um pouco mais de vinte milhões e Los Angeles fica em torno de quinze milhões. Tokyo é classificada oficialmente como "prefeitura metropolitana" e se divide em "bairros" que possuem seus próprios prefeitos e câmaras de vereadores. A cidade em si não tem prefeito, tem governador.
Aluguei um apartamento no "bairro" Shinjuku, mais especificamente na área chamada Hyakunincho. O nome significa literalmente "cem pessoas". Em 1596, o shogun criou uma unidade especial de samurais só para proteger o Castelo de Edo, e ofereceu esta área para eles residirem. O nome Hyakunincho continua a ser usado como homenagem a esses samurais. É uma área residencial tranquila, mas não muito longe do burburinho da região da estação de trem. A estação Shinjuku é a mais movimentada do mundo, servindo cerca de quatro milhões de pessoas por dia, e parece quase uma pequena cidade. São mais de cinquenta plataformas de trem, incontáveis corredores labirínticos, centenas de lojas, conexões subterrâneas com pelo menos meia dúzia de shopping centers, e mais de duzentos portões de entrada e saída. E, claro, multidões incessantes circulando como abelhas em busca de flores.

Tokyo tem um sistema de transportes excepcional, uma rede complexa de trem, metrô, e ônibus, operada por várias empresas públicas e privadas, É um dos sistemas mais extensos, eficientes, e pontuais do mundo. A rede ferroviária é a espinha dorsal, com trens chegando a cada poucos minutos e ligando a todas as partes da cidade e além. Fica um pouco intenso na hora do rush, mas é tudo muito seguro, limpo, e confiável.

Parques e templos
Apesar das movimentadíssimas estações de trem, do barulho constante de carros tocando jingles pelas ruas, e dos placares e neons iluminando a noite, Tokyo tem surpreendentes oásis de calma. Existem vários parques enormes espalhados pela cidade, onde o caos parece derreter e ser substituído pelo silêncio das árvores e dos lagos.
Perto do meu apartamento, temos o Shinjuku Gyo-en. Como seria de esperar, o parque tem um belo jardim japonês em estilo tradicional, com laguinhos e pontes e vegetação cuidadosamente arranjada. Mas também tem um jardim em estilo francês, outro em estilo inglês, uma estufa com plantas tropicais, e até uma pequena floresta chamada "Haha to ko no mori" ("Floresta da Mãe e da Criança"), com umas 20.000 árvores.



O templo Oiwa-Inari Tamiya está associado a uma história de fantasmas. Um marido matou sua esposa para poder casar com outra mulher. Aí ele começou a ver o fantasma da falecida por todos lados. Até que o fantasma botou seu rosto no corpo da nova mulher, e o marido a matou achando que estava matando o fantasma. Quando ele percebeu o que tinha acontecido, se atirou de um penhasco. Para acalmar o fantasma vingativo, a família dela mandou construir o templo Oiwa-Inari Tamiya. Não é uma história verdadeira mas é uma boa história. Já foi contada milhares de vezes, se transformou em peça de kabuki, e inspirou vários filmes.
Mais um história. Um senhor feudal foi forçado a cometer suicídio ritual (seppuku) por ameaçar um ofical da corte que o tinha ofendido. Seus samurais leais decidiram vingar o mestre e mataram oficial (e todo mundo que estava na sua casa), e depositaram a sua cabeça no túmulo do mestre. Depois, todos se suicidaram também, e ficaram conhecidos como Os 47 Samurais ou Os 47 Ronins (um samurai sem mestre). Esta história é verdadeira, e também apareceu em literatura e em vários filmes. Eu visitei os túmulos, que estão num templo chamado Sengaku-ji.
Também visitei outros jardins, como Korakuen Garden, Kyu-Yasuda Gardens, o pequeno Yokoamicho Park, Kiyosumi Gardens, Hamarikyu Gardens, e Otaguro Park.



E os museus?
Sim. Tokyo tem mais de cem museus. Eu visitei alguns.
O Tokyo National Museum, que fica no Ueno Park, tem vários edifícios. Só o jardim já vale a visita, com casas de chá históricas e um lago. Uma das casas de chá ainda funciona, e almocei lá: onigiri de salmão e cavalinha defumada, com missoshiru e picles caseiros. O museu tem uma coleção de centenas de objetos do Japão antigo, incluindo cerâmica, escultura, pintura, mobiliário, joalheria, moedas, e caligrafia. Eles também tinham uma exposição especial de ukiyo-e (gravura em madeira) feito por artistas recentes.



O Tokyo Metropolitan Art Museum, também no Ueno Park, tinha uma enorme exposição do Miró, com muitas obras que eu nunca tinha visto. Ocasionalmente, essas retrospectivas pegam emprestados quadros normalmente escondidos em coleções privadas, e foi o caso aqui. Uma boa continuação para a minha visita à Joan Miró Foundation em Barcelona no ano passado.
No Mitsubishi Ichigokan Museum, vi uma exposição comparando quadros do Renoir e do Cézanne lado a lado. O Cézanne sempre ganha, claro. O museu também tinha outra exposição de arte ocidental, Modern French Landscape Paintings - From Corot to Matisse.

Outra artista japonesa muito famosa é a Yayoi Kusama, também conhecida como a mulher que pinta bolinhas, e eu visitei o museu dela, que, sem surpresa, é cheio de bolinhas.
O Yoku Moku Museum tem uma coleção de cerâmica do Picasso, da época que ele passou em Vallauris (eu visitei o estúdio dele lá quando morei em Nice). O Artizon Museum tinha uma boa coleção de arte ocidental do começo do século 20: Sisley, Pissarro, Cézanne, Gauguin, Matisse, Renoir, Klee, Picasso, Miró, e vários outros.
No National Art Center, vi a exposição de arquitetura Living Modernity, com trabalhos de Mies van der Rohe, Frank Gehry, Lina Bo Bardi, Alvar Aalto, Kameki Tsuchiura, Koji Fujii, entre outros.
O Yamatane Museum of Art tinha uma exposição da Uemura Shōen, uma artista japonesa do início do século 20 que pintava mulheres bonitas em tela de seda. O Asakura Museum of Sculpture é a excepcional casa-atelier do escultor japonês Fumio Asakura. Eu gostaria de ter uma casa assim, com quartos em estilo tradicional japonês ao redor de um jardim central com um laguinho relaxante cheio de carpas.
No Sato Sakura Museum, havia uma exposição de arte contemporânea japonesa um pouco sem graça. Também visitei o Tokyo Photographic Art Museum, o Museum of Contemporary Art Tokyo, o Japanese Sword Museum, o Miyamoto-Unosuke Drum Museum, o Suginami Animation Museum, e o Ad Museum Tokyo.

Eu pratiquei judô por toda a minha adolescência, e sempre disse que um dia iria visitar a Kodokan, centro mundial da comunidade de judocas, fundada pelo Jigoro Kano. Então, muitos anos depois, esse dia chegou. Eles têm um pequeno Kodokan Judo Museum, mas eu escapei para o sétimo andar do edifício, que estava vazio, para ver o famoso dojo principal da Kodokan. Fascinante.


Palácios e castelos
O Akasaka Palace é onde o governo japonês hospeda dignatários internacionais, como o presidente Donald Trump em 2017 e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025. É um palácio suntuoso construído em 1909 no estilo Neo-Barroco (bem ocidental).


Taiko
Eu sou grande admirador do taiko (tambores japoneses), e tive sorte de assistir os grupos Wadaiko Yamato e Kodo Taiko quando tocaram em Washington DC (em 2007 e 2009, respectivamente). Aqui em Tokyo não foi fácil achar um show de taiko (eles normalmente não se apresentam no verão), mas acabei conseguindo ver o Drum Tao, um grupo jovem e vibrante. Ótimo espetáculo.
Terremoto!
Ah, sim, passei por dois pequenos terremotos em Tokyo. Na sexta-feira 13 de junho, magnitude 4.2. Na terça-feira 15 de julho, magnitude 4.8. Em ambas ocasiões, foi o suficiente para fazer tudo chacoalhar aqui no meu apartamento no décimo andar.
E a comida?
Esta newsletter já está muito longa, e há tanto para falar sobre comida japonesa, então vou deixar o assunto para a segunda parte, que enviarei em breve. Sayonara!

