É a minha primeira vez no Hawaii, a minha primeira vez na Polinésia, e a minha primeira vez na Oceania. Com isto, já estive em cinco dos seis continentes habitados (só falta a África).
Meu apartamento em Honolulu fica no bairro Ala Moana, que significa "caminho para o mar" em havaiano. E estou mesmo só a duas quadras da praia, que também posso ver daqui da janela do 33° andar.
O bairo ao oeste chama-se Kaka'ako (o nome vem do trabalho com palha que faziam por lá, para cobrir as casas), e tem vários edifícios de escritórios e uns bons restaurantes. Para mim, a melhor atração é a abundância de arte de rua. O bairro ao leste chama-se Waikiki (o nome significa "jorro de água fresca"), provavelmente a praia mais famosa da ilha. Está cheio de hotéis, comércio de luxo, e turistas. Mas na minha cabeça Ala Moana sempre fica em primeiro lugar, porque era a marca de camisas mais cobiçada quando eu era adolescente.
Tem muitos pássaros por aqui. Cotovias, tentilhões, pardais, garças, gaivotas, patos, e vários outros que não sei o nome. Meu preferido é o cardeal-de-topete-vermelho, originário do sul do Brasil. Mas também me diverte ver galinhas selvagens vagando pelos parques. Eu nunca tinha visto galinhas soltas numa cidade grande. Aparentemente, cada vez que passa um furacão pela ilha os galinheiros se desmontam e as galinhas são liberadas para fortalecer o EGL (Exército das Galinhas Livres). Também há árvores interessantes em Honolulu, como a figueira-da-índia (tem uma em Waikiki com 23 metros de altura e 45 metros de largura) e o gordo baobá (que é da África, mas eu contei mais de dez no Ala Moana Beach Park). E nesta época do ano a cidade está toda florida, especialmente com a onipresente melia (que é o nome havaiano para a plumeria).
A minha rotina matutina é caminhar até a ponta leste da praia, entrar na água, nadar um pouco e boiar um pouco até a ponta oeste (aproximadamente a um quilômetro), e então voltar andando pela areia. Numa quarta-feira calma, estava eu placidamente boiando no mar quando reparei que tinha uma companheira. Bem ao meu lado, uma tartaruga enorme (Chelonia mydas), aproximadamente do tamanho do meu peito, me observava com a indiferença de um monge zen. Depois de alguns minutos de comunhão silenciosa, minha amiga aquática desapareceu na água.



Só praias e parques, nada de museus?
Sim, claro, encontrei alguns museus. O Honolulu Museum of Art foi o que eu gostei mais. Eles têm arte e artesanato do Hawaii, Japão, China, e Coréia, mais uma coleção surpreendente de arte ocidental. Gostei de ver trabalhos de Cézanne, Monet, van Gogh, Gauguin, Matisse, Modigliani, Calder, Tanguy, O'Keeffe, e vários outros. Meu preferido foi The Great Machine, do Giorgio de Chirico.
O Bishop Museum mostra objetos da história do Hawaii e artefatos das culturas da Polinésia. Também há uma ala dedicada a história natural. O Capital Modern Museum é uma coleção de arte contemporânea do Hawaii, abrigada no segundo andar do Capitol District Building, originalmente o primeiro hotel do Hawaii, inaugurado em 1872 e apropriadamente chamado Hawaiian Hotel.

Hawaii na televisão
Como estou em Honolulu, resolvi assistir as primeiras temporadas de shows emblemáticos filmados aqui: Hawaii 5.O (a série original de 1968) e Magnum, P.I. (a série original de 1980). A ilha mudou muito desde então, mas ainda tem muitos locais fáceis de reconhecer. É divertido ver o Steve McGarrett (Jack Lord) ou o Thomas Magnum (Tom Selleck) andando num lugar onde eu estive bem na semana passada. Também visitei a praia isolada onde o Burt Lancaster e a Deborah Kerr rolaram na areia abraçados como dois croquetes humanos em From Here to Eternity (no Brasil, A Um Passo da Eternidade).

Já que croquetes foram mencionados, e a comida?
O que eu mais comi aqui foi poké: cubos de peixe cru (geralmente atum, salmão, ou corvina) servidos numa tijela com arroz, legumes, e molho. Muito bom.
Outro prato tradicional é o Kālua pig: porco desfiado, assado num forno subterrâneo. Eu gosto de carne de porco tostadinha, e esta parece que foi fervida em água, então não apreciei muito.
Loco moco é um hamburger servido em cima de arroz e coberto com gravy e um ovo frito. Não recomendado para quem tem problemas com colesterol.
E tem também a malasada, trazida dos Açores no século 19 por imigrantes portugueses e agora o doce mais popular no Hawaii. É da mesma família do beignet de New Orleans, do sonho de Sāo Paulo, e da berliner ballen de Berlim.


Temos que conversar sobre Mai Tais
Apesar de não ter sido inventado aqui (veio da Califórnia), o Mai Tai se tornou a bebida oficial do Hawaii. A versão clássica é feita com rum claro, rum escuro, curaçao, xarope de amêndoa, e sumo de limão. Aqui eles fazem os melhores Mai Tais que já bebi, com muitas variações. Um em particular pode ter estragado o meu gosto para sempre, porque nunca vou encontrar um Mai Tai mais delicioso. É o Monkeypod Mai Tai feito no restaurante Monkeypod Kitchen: Old Lahaina Light Rum, Old Lahaina Dark Rum, xarope de macadâmia, Marie Brizard Orange Curaçao, e sumo de limão. Em cima disso, vai uma espuma feita com mel, clara de ovo, e purée de liliko'i (liliko'i é o nome havaiano para o maracujá). Delicioso.

E depois do Hawaii?
Nos próximos três meses, vou morar no Japão. Mas essa é uma história para outra hora. Sayonara!


