039Dezembro 2025 · Oceania

Dois meses em New Zealand, parte um: Wellington

Dois meses em New Zealand, parte um: Wellington
Wellington

A Nova Zelândia é possivelmente o país mais isolado do mundo. Seus vizinhos mais próximos (Austrália, New Caledonia, Fiji, e Tonga) ficam a cerca de 2.000 km de distância. E são aproximadamente 9.500 km até a América do Sul, 12.000 km até a América do Norte, 12.000 km até a África e 18.000 km até a Europa.

Wellington é também a capital mais ao sul do planeta, a 41,29° S. E é, sem dúvida, o lugar mais ventoso em que já estive. Ventos frequentes, com rajadas fortes o bastante para mudar o rumo da caminhada.

Aluguei um apartamento simpático em Wellington, a três quarteirões do mar. Se eu sigo para o oeste, há o Waterfront Walk, com museus, galerias, teatros, restaurantes, veleiros e, por fim, o Lambton Harbour, onde atracam os ferries e os navios cargueiros. Se sigo para o leste, está a Oriental Bay, com suas pequenas praias e enseadas rochosas. Nada disso é mar aberto, pois Wellington foi construída sobre um porto natural formado por uma cratera vulcânica alagada que se conecta ao Estreito de Cook, o corpo d’água que separa as Ilhas Norte e Sul de New Zealand.
Oriental Bay
Oriental Bay
Wellington Harbour
Wellington Harbour
A cidade não tem muitos museus. O Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa é, de longe, o melhor deles, com exposições muito interessantes. Te Taiao (que significa “o mundo natural” em maori) mostra vários aspectos da flora, fauna, e geologia locais, incluindo exemplares embalsamados de kiwis (a ave símbolo do país), kakapos (um papagaio muito gordo), e kokakos (uma ave tão popular que aparece na nota de cinquenta dólares), além de uma lula colossal (com 5,4 m de comprimento total e cerca de 300 kg). Gallipoli: The Scale of Our War conta a história da campanha de Gallipoli na Primeira Guerra Mundial e apresenta esculturas gigantes e extremamente realistas feitas pela Weta Workshop (a empresa responsável pelos adereços e efeitos especiais da trilogia The Lord of the Rings). Há muito mais para ver no museu, tanto que o ingresso é válido por dois dias.
Entalhes Maori
Entalhes Maori
Escultura de Gallipoli
Escultura de Gallipoli
Também visitei o Wellington Museum (uma coleção divertida de curiosidades ligadas à cidade, de réplicas de navios a leões empalhados), a New Zealand Portrait Gallery (que exibia uma mostra de autorretratos de artistas neozelandeses), e algumas galerias de arte com exposições de pintura pouco memoráveis, além do Cable Car Museum. O Wellington Cable Car é um funicular que liga a área comercial da cidade ao Wellington Botanic Gardens, subindo 120 metros e oferecendo uma bela vista da baía.
Vista do Botanic Gardens
Vista do Botanic Gardens
Uma vista ainda melhor da baía se tem do alto do Mount Victoria, um morro de 196 metros logo ao lado do meu apartamento. Subi lá para fotografar a cidade e também explorei as trilhas à procura de locações de The Lord of the Rings. A cena mais emblemática filmada ali é aquela em que os hobbits se escondem sob uma grande raiz de árvore para escapar de um Nazgul ameaçador.
Hobbits caminharam por aqui
Hobbits caminharam por aqui
Para mais coisas de hobbits, fui até Miramar, um subúrbio de Wellington, fazer uma visita guiada à Weta Workshop (ou pelo menos à parte aberta ao público). Há muitos adereços, figurinos, e próteses (orelhas élficas, narizes de anão, esse tipo de coisa), não apenas do universo de The Lord of the Rings, mas também de várias outras franquias famosas, incluindo Avatar, Distrito 9, Indiana Jones, Power Rangers, e até Thunderbirds. Em Miramar também vi o cinema art déco Roxy e a estátua do Gandalf ali perto.
Roxy
Roxy
Gollum
Gollum

Terremoto!


Sim, na minha segunda noite em Wellington houve um terremoto de magnitude 4,7. Tudo balançou, mas sem maiores consequências. Agora já passei por terremotos em quatro continentes: Lisboa no início dos anos 1990, Washington DC em 2011, e Japão e New Zealand este ano.

E a comida?


O fish and chips aqui é muito melhor do que em Sydney, possivelmente porque usam kingfish, uma espécie grande e abundante em New Zealand. Também comi grelhado e em ika mata (peixe cru marinado em suco de limão com leite de coco). Mas a estrela absoluta é o pernil de cordeiro, assado até a carne ficar tão macia que se desprende do osso. Absolutamente delicioso.

Também comi beef wellington, só para poder dizer que comi beef wellington em Wellington. Na verdade, não há uma conexão forte entre os dois. A cidade recebeu o nome do primeiro duque de Wellington, o general vitorioso na Batalha de Waterloo em 1815. O prato é, na verdade, uma invenção francesa, filet de boeuf en croûte (filé de vaca em massa folhada), e foi rebatizado na Inglaterra, possivelmente como uma provocação ao país derrotado em Waterloo. De qualquer forma, é saboroso: filé-mignon envolto em massa e creme de cogumelos.

E conheci o kiwi dourado (golden kiwifruit). Nunca fui muito entusiasmado com kiwis (a fruta, não o animal), mas essa variação (um cultivar desenvolvido aqui nos anos 1990) é excelente. A casca é menos peluda, e a polpa é amarela, mais firme e mais doce que a do kiwi original, com um leve sabor de pêssego.

Felizmente, embora a comida seja cara aqui, os vinhos são muito bons e têm preços acessíveis. Bebi bons pinot noir e shiraz, os melhores vindos de Hawke’s Bay (ao nordeste de Wellington).

Se você gosta de café, aqui há o flat white: um duplo expresso com leite vaporizado. Não é um latte, porque tem muito mais café. Não é um cappuccino, porque não tem toda aquela espuma por cima. É bem gostoso.

Newsletter photograph
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E os passeios?


Fui um pouco ao nordeste de Wellington para ver mais locações de The Lord of the Rings. Perto de um lugar chamado Upper Hutt, o rio Hutt (em maori, Te Awa Kairangi) foi usado como o mítico rio Anduin, que a Fellowship of the Ring atravessa em canoas. O Harcourt Park, nas proximidades, foi o cenário dos jardins de Isengard, a fortaleza do Saruman, mas é difícil reconhecer algo, já que a equipe de filmagem precisou deixar tudo como encontrou, revertendo qualquer alteração feita para as filmagens. O mesmo vale para o Kaitoke Regional Park, onde construíram Rivendell. Todas as construções sumiram, exceto o portão por onde a Fellowship parte rumo a Mordor. Mas as árvores continuam lá, o parque é belíssimo, e algumas paisagens ainda são identificáveis.
Anduin River
Anduin River
Também fui a Martinborough, ao leste de Wellington, para visitar vinhedos e degustar vinhos. Infelizmente, a maioria é vinho branco (chardonnay, sauvignon blanc, pinot gris), e os poucos tintos (pinot noir) são leves e com poucos taninos. Não é o meu tipo de vinho. Pelo menos tive um almoço excelente lá: pernil de cordeiro assado lentamente.
Vinhedos em Martinborough
Vinhedos em Martinborough

E depois de Wellington?


Amanhã vou para o norte do país, para ficar em Auckland, a maior cidade de New Zealand. Conto sobre isso na próxima vez. Kia ora! (É o que dizem aqui ao chegar ou partir, significa algo como “fique bem” ou “boa saúde”).
Hobbits cruzaram este rio
Hobbits cruzaram este rio
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