New Orleans é território familiar. Visitei a cidade várias vezes quando morava nos EUA em tempo integral, e morei aqui por um mês no meu primeiro ano de vida nômade. Desta vez aluguei um apartamento na parte sudeste do French Quarter, no segundo andar de uma típica moradia creole. Tem até uma varanda com cadeiras de balanço.


O Faulkner viveu aqui no início da carreira, e a sua casa na Pirate's Alley agora é uma livraria. Não posso dizer que gostei muito dos livros dele. Uma prosa muito rebuscada e propositadamente obscura. Ele uma vez zombou do Hemingway dizendo que "ele nunca usou uma palavra que pudesse levar o leitor ao dicionário". O Hemingway, que nunca deixava um insulto sem resposta, disse "Pobre Faulkner. Ele acha mesmo que emoções grandes vêm de palavras grandes?" Eu apoio o Hemingway, claro.
Assistir Tennessee Williams foi muito mais interessante e divertido. Ele é famoso pelos personagens emocionalmente perturbados e pela exploração da vulnerabilidade humana, mas eu também encontro um senso de humor sutil nas suas peças (humor negro, obviamente). Ele morou aqui no fim dos anos trinta, e voltou várias vezes. Segundo ele, "Nos EUA só existem três cidades: New York, San Francisco, e New Orleans. O resto é tudo Cleveland".
Também tomei uns drinks no célebre Carousel Bar dentro do Hotel Monteleone. Este hotel era uma espécie de ímã para escritores, e teve como hóspedes Truman Capote, Scott Fitzgerald, e Ernest Hemingway, entre outros. O bar tem este nome por ser do formato de um carrossel e por girar levando os clientes com ele. Você fica sem saber se está tonto por causa da bebida ou do carrossel. Outro sujeito que morou em New Orleans no começo da carreira foi o Charles Bukowski, numa casa aqui perto da minha. Ele escreveu que New Orleans não interferiu com ele. "perdido / louco talvez / não é tão ruim / se você pode ficar / daquele jeito / imperturbado".

O quê, só literatices e sem musiquices?
Sim, muita música. Andei pelos lugares habituais da Frenchmen Street, como Snug Harbor, The Spotted Cat, d.b.a., Blue Nile, e Bamboula's, e ouvi bandas como Tuba Skinny, Palmetto Bug Stompers, e The Secret Six, entre outras. Destaque para o lendário Little Freddie King no d.b.a. e para o Irvin Mayfield, ganhador de um Grammy, no Kermit's Treme Mother-in-Law Lounge.


E a comida?
Como Bangkok na Tailândia e Salvador no Brasil, New Orleans é uma cidade onde é preciso tomar cuidado com a pimenta. Quando o garçom diz que "não tem pimenta", significa que tem pimenta. Quando diz que "tem um pouquinho de pimenta", significa que é muito, muito apimentado. Quando diz que "é muito apimentado", precisa de uma ambulância na porta do restaurante em caso de combustão espontânea.



E os passeios?
Não saí da cidade. Na verdade, raramente saí do French Quarter e do adjacente Faubourg Marigny. Mas poderíamos dizer, talvez, que fiz uma visita às terras do além. Fui ao St. Louis Cemetery No. 1, o mais antigo cemitério de New Orleans, aberto em 1789. Entre os muitos túmulos verticais (não se pode enterrar uma pessoa aqui, a cidade está cercada pelo Lago Borgne, pelo Lago Pontchartrain, e pelo Rio Mississippi, e em qualquer lugar que você cavar vai encontrar água), vi as tumbas do Paul Morphy (considerado o melhor jogador de xadrez do mundo no meio do século 19), da Marie Laveau (famosa sacerdotisa de voodoo em New Orleans), e do Nicolas Cage (que ainda não morreu mas já mandou construir uma pirâmide para receber seu corpo quando chegar a hora).

E agora?
No fim-de-semana vou para o Brasil passar um tempo com a minha mãe. Depois, fico em Buenos Aires por alguns meses.
Hasta la vista!

